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Entrevista: Francisco José, a voz do Phantro em ThunderCats.

Entrevista realizada por Marco Antônio Santos

Francisco José Corrêa nasceu em 19 de Abril de 1940, em São Paulo, Capital.  Mudou-se cedo para Poços de Caldas, interior de São Paulo, onde fez pequenas narrações na rádio da cidade. Nos anos 1950, mudou-se para Itanhandu (MG), aonde se encarregou do teatro do colégio em que estudava.
 
Em seguida, ingressou na TV Tupi na série Águias de Fogo (1968) e por não ter conseguido dublar a si mesmo, resolveu aprender a técnica, dando início a uma nova etapa da sua carreira artística, a dublagem.

Em seriados Francisco José emprestou sua voz ao Chefe Francis Ethelbert Sharkey em Viagem ao Fundo do Mar, Emmett Ryker em O Homem de Virgínia, Harry Rule em The Protectors, Magistrado Carlos Galindo em Zorro, Inspetor Kobick em Terra de Gigantes, Capitão Donald Cragen em Lei e Ordem, Silvio Dante em Família Soprano, Almirante Al Calavicci em Contratempos, entre outros trabalhos.

Fazendo desenhos animados foi o Panthro em Thundercats, Wolverine em X-Men, Coronel Trautman em Rambo, Skywarp em Transformers, Lex Luthor em Liga da Justiça e Liga da Justiça Sem Limites, Vulcão Negro em Super Amigos, Bronquinha em Ursinhos Gummi, Dinkleberg em Os Padrinhos Mágicos, só para citar alguns.

“Se você acreditar, se a causa for justa, se o trabalho for honesto, o sucesso virá!”

Francisco José

DB – Dublagem Brasileira – Antes de começar na dublagem que outras atividades você desempenhou dublador?


Francisco José – Tive outras profissões sabendo que seriam passageiras. Quando aparecesse a oportunidade de ser ator as profissões seriam abandonadas. Assim, fui aeroviário, comprador da Cosipa, jornalista (antes da regulamentação da profissão), assistente de vendas de uma indústria alimentícia. Em todas elas fui relativamente bem pago, mas o vírus já tinha me contaminado. Nos meus tempos de ginásio eu já era um tremendo agitador de teatro.

DB – Esse “vírus artístico”, quando você percebeu que já estava com ele?

FJ – Eu era estudante e já vivia metido com rádio. Onde eu morei, Poços de Caldas, também me meti a locutor de rádio, e dizem que eu não era tão ruim… A TV não tinha chegado lá ainda, mas eu ainda não tinha sido mordido pela mosca do teatro. Isso aconteceu quando fui transferido de cidade. Fui para um município do sul de Minas, que não tinha rádio, não tinha nada, Itanhandu, na época 5 mil habitantes mais ou menos. Então a agitação cultural da cidade era feita por nós, estudantes. Participei da fundação de um jornalzinho da cidade, me encarreguei do teatro do colégio, eu estava em todas.

DB – E quando começou a atuar?

FJ – Em 1958, terminado o ginásio, tive que voltar a São Paulo para iniciar minha vida adulta. Foi quando tive uma variedade de profissões. O artista ficou hibernando até 1965. Apareceu minha primeira oportunidade de trabalhar como ator. Após 2 meses de ensaio, a montagem da qual participaria foi proibida pela censura. Mas aí eu resolvi encarar a profissão.
Fiz muitas radio-novelas para o interior, TV (saudosa TV Tupi). Participei da fundação de um grupo de teatro popular que existe até hoje em São Paulo, o TUOV.

Em 1968, filmei um episódio de um seriado para a TV. A produção era de Ary Fernandes, o mesmo de O Vigilante Rodoviário. Só que era sobre a FAB. O seriado era Águias de Fogo e não teve o mesmo sucesso do Vigilante. Durante a filmagem eu soube que seria dublado. Insisti em me dublar. Foi um fiasco. Após não sei quantas tentativas, o Garcia Neto disse para mim: “Meu filho, faça um favor para todos nós; fique fazendo só teatro; dublagem você não consegue.” Isso foi na Odil Fono Brasil. Então comecei a procurar um meio de poder ser aceito até que cheguei na AIC, para aprender a nova técnica. 

Francisco José, importantes papeis em São Paulo e no Rio de Janeiro.

DB – Quem te deu oportunidade a AIC?

FJ – Fui recebido por Older Cazarré, que me guiou nos primeiros passos. E tantos outros. Vou tentar não cometer nenhuma injustiça omitindo nome de alguém. Também me deram dicas preciosas: Flávio Galvão, Ézio Ramos, Wilson Ribeiro, Ary de Toledo, Olney Cazarré, Aldo César, Dráusio de Oliveira, Líbero Miguel, José Soares, Sergio Galvão, Batista Linardi. Muitos ainda por aqui, outros já foram para o andar de cima.

DB – Como você imagina, com a atual tecnologia, a dublagem realizada na AIC?

FJ – Se naquela época houvesse a tecnologia atual, a dublagem seria imbatível. Qualquer profissional só poderia ser assim, considerado se tivesse passado pela AIC.

DB – O que melhorou na dublagem atual?

FJ – Na dublagem atual, aparentemente, melhorou a rapidez. Só. Interpretação nula. Emoção zero. Se você assistir a um filme dublado, já viu todos. As interpretações são mecânicas, sem alma. Qualidade? O que é isso?
Hoje o investimento para se montar uma dubladora é bem menor. Mas tem-se que entrar na disputa de mercado e aí vira uma guerra, com todos querendo tirar vantagem… e todos perdendo.

DB – O chefe Sharkey, da série Viagem ao Fundo do Mar, foi o seu primeiro personagem fixo? Como você foi indicado?

FJ – Eu fiz vários convidados e o chefe Sharkey não foi meu primeiro fixo. Meu primeiro fixo foi num seriado, que também não aconteceu, Cidade das Ilusões. O chefe Sharkey me foi dado pelo Dráusio de Oliveira. É que o Garcia Neto estava sendo reintegrado na AIC, por ordem judicial. E o reencontro com o Garcia foi muito engraçado, porque eu já tinha mudado de cara e já fazia tempo do episódio de Águias de Fogo. Garcia Neto foi um dos grandes amigos que fiz na vida; a amizade só foi interrompida porque ele teve que passar para o andar de cima. Muita saudade…

DB – Antes de chegar a Herbert Richers em quais outros estúdios você passou?

FJ – Ainda em São Paulo, passei pela Álamo, Odil Fono Brasil e uma tentativa que houve de erguimento da profissão na COM-ART. Esta tentativa não foi bem sucedida porque na época em nossa ingenuidade quisemos fazer tudo às claras demais. Enquanto as poucas casas de São Paulo se recusavam a fazer o pagamento-hora, a COM-ART implantou-o, apesar da campanha violenta de descrédito, principalmente pelos dirigentes da Álamo e de alguns membros da categoria que diziam que o “pagamento-hora iria quebrar as empresas”.

Com a quebra da COM-ART, por motivos outros, não havia mais trabalho para mim em São Paulo. Foi então comunicado a outro grande amigo que eu tinha feito no meio, Marcos Miranda, a minha situação. Herbert Richers foi cientificado e disse que, desde que eu não viesse ao Rio apenas por um tempo, eu teria emprego garantido em sua empresa.

DB – E como foi sua carreira na Herbert?

FJ – Eu vim para o Rio e em menos de 6 meses tinha conseguido trazer toda minha família, esposa e três filhos.

A relação que tive com Herbert Richers foi pautada pelo maior respeito e lealdade. Fiz bons trabalhos lá. Como dublador destacaria:
Uma Cilada para Roger Rabbitt, Contratempos, Thundercats, Ursinhos Gummi, Silverhawks e várias minisséries.

Como diretor de dublagem também fiz muitas minisséries e alguns longa metragens. Destacaria: todos os episódios de Loucademia de Polícia, Cuidado com as Gêmeas, Uma Linda Mulher, Aventureiros do Bairro Proibido“, Colors, as Cores da Violência, Henrique V. Quando estava para completar 10 anos de casa, é claro que tive que ser demitido.

DB – Saindo da Herbert Richers onde você foi trabalhar?

SL – Fui então convidado para ser diretor exclusivo da VTI. Como a relação não era de respeito como a que eu tinha na Herbert Richers, eu me demiti, após 7 meses, onde não trabalhei, apenas “cumpri pena”. Mesmo assim, posso me orgulhar pela direção de dublagem, inclusive escalação de elenco fixo, do primeiro ano de Arquivo X. E nesse tempo em que “cumpri pena” ainda dirigi mais dois seriados, Deep Space Nine (uma continuação de Jornada nas Estrelas) e Os Novos Intocáveis, série que foi reprisada “n” vezes no Universal Channel.

Quando me demiti da VTI, fui chamado de novo à Herbert Richers. Aceitei, desde que fosse apenas para dublar. Mas não tardaria convite para dirigir em outra empresa do Rio, a Cinevideo. Eu trabalhava como diretor de dublagem em uma empresa e como dublador na outra. Mas o meu tempo maior era absorvido pela direção. Aí dirigi um seriado que foi acompanhado pelo representante da Warner, Histeria. Recebi elogios da Warner e da direção da Cinevideo.

Quando a saúde de Herbert Richers começou a decair, fui desligado de sua empresa por comum acordo. Isso em 2003. Em 2005 foi a vez da minha saúde reclamar. Tive problemas circulatórios que por pouco apressam minha ida para o andar de cima.

Requeri minha aposentadoria e ficaria dublando agora mais por hobby. Mas veio a forte pressão para cessão de direitos de intérprete. Como me recusei a ceder, minha entrada foi proibida nos estúdios.

Almirante Al Calavicci (Dean Stockwell) em Contra Tempos

DB – Saindo da dublagem você exerceu alguma outra atividade?

FJ – Aposentado e com a saúde parcialmente recuperada, fui convidado a entrar em novo ramo: o livro falado. Dirigi várias gravações de áudio livros para a Bienal do Livro, aqui no Rio de Janeiro. Felizmente foi um sucesso total.

DB – Que aprendizado você teve, após tantos anos da tua carreira?

FJ – Se você acreditar, se a causa for justa, se o trabalho for honesto, o sucesso virá.

Eu me orgulho muito dos amigos que fiz em toda minha caminhada. Se pude ajudar iniciantes, o fiz sempre com o coração aberto. Valeu a pena? É claro que valeu. Faria de novo? Faria tudo. Exatamente como fiz.

DB – Há pouquíssimos registros sobre a dublagem no Brasil, você vivenciou várias etapas, nunca pensou em escrever um livro de memórias?

FJ – Há pessoas que também viveram os fatos narrados e estão vivas por aí para testemunhar. Eu mantive um blog durante algum tempo e pretendia contar fatos, alguns engraçados, outros tristes, dos quais participei. Quando meu amigo Francisco Borges foi para o andar de cima, eu decretei a morte do meu blog.

DB – Francisco José, um grande abraço e obrigado pelo bate papo?

FJ – Abraços

Marco Antônio dos Santos
Marco Antônio dos Santos
Professor, pesquisador de dublagem e responsável pelo blog Universo AIC.

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