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O genial André Filho, a voz do Rambo no Brasil!

A Rambomania tornou a voz de André Filho uma das mais conhecidas em plena década de 80.


No Brasil, o ano de 1988 foi sem dúvida o grande momento do herói criado por David Morrell e protagonizado nos cinemas por Sylvester Stallone. Rambo tornou-se uma verdadeira febre, isso porque o terceiro filme da franquia chegava aos cinemas e para aproveitar a onda as emissoras resolveram lançar os dois primeiros longas do herói nas telinhas.

Naquela ocasião, o Brasil passava por uma Rambomania não só pelos cartazes do terceiro filme, mas pelo desenho animado em exibição dentro da Sessão Aventura na Globo (A Força da Liberdade). Também estava no ar, com grande aceitação do público, o concurso “Rambo Brasileiro” promovido pelo programa Viva a Noite, que tornou-se sucesso garantido.

Mas o fator principal é que os dois primeiros filmes já haviam atingido voos muito altos em VHS e cinema e naquele momento não tinham mais para onde ir, exceto a televisão, pois agora a audiência queria vê-los dublados!

A versão animada de Rambo, também com voz de André Filho.

O Desenho Animado.



Para aproveitar o sucesso do personagem no cinema, não demorou muito para surgir uma versão animada do herói. Rambo e A Força da Liberdade utilizava a música tema dos filmes e a caricatura do astro Sylvester Stallone nos traços do protagonista. A produção foi das empresas Ruby-Spears Productions e Carolco International N.V. que providenciaram uma animação caprichada para a série, além de roteiros bem elaborados.

No Brasil o desenho estreou no dia 6 de julho de 1987 dentro do Xou da Xuxa, um dos programas de maior audiência no país naquela ocasião e para completar ganhou aquele que era considerado o horário nobre do programa, o último bloco, que ia ao ar por volta das 11h, horário em que o público aumentava em virtude da chegada de muitas crianças da escola.

Antes mesmo da estreia do desenho, Xuxa já tinha lançado no seu LP Xegundo a faixa “Rambo”, composta por Michael Sullivan e Paulo Massadas (“Rambo, Rambo, Rambo. O importante da vitória é acreditar”), que logo caiu no gosto dos baixinhos.

Rambo era a carta na manga das emissoras em busca de audiência.

A Guerra das Emissoras.


Em julho de 1988 a TVS começou a colocar no ar aquilo que muitos fãs do cinema de ação esperavam, os comerciais que anunciavam a estreia de Rambo na televisão. Rambo – Programado Para Matar, inicialmente foi esperado para o dia 17 de agosto daquele ano, sendo escolhido para inaugurar a faixa de filmes Cinema em Casa que ocuparia espaço na programação da emissora, a partir dali, toda quarta-feira. O comercial anunciava como muita pompa e usando o slogan característico do canal: “pela primeira vez na televisão!”.

Mas, bastou a TVS agendar a exibição do filme, para que a Globo desse férias à minissérie Primo Basílio, colocasse o Chico Anysio Show para o dia seguinte e convocasse Rambo II com a missão de combater a emissora de Sílvio Santos. Temendo perder a audiência para o SBT o canal de Roberto Marinho anunciou a exibição do filme exatamente para o mesmo dia que a concorrente. “Rambo II é mais forte e deu mais bilheteria. Por que não dar ao espectador a oportunidade para escolher o melhor? Resolvemos lançar nosso produto para a exibição no mesmo horário do Rambo I e deixar que o público escolhesse qual assistir. O primeiro é um Rambo velho, da época em que o herói não era tão musculoso ou famoso. Eu nunca tive dúvidas de que o segundo filme da série é muito melhor que o primeiro”, disse na época o então diretor de programação da Globo Roberto Buzzoni.

Já Luciano Calegari, superintendente da TVS declarou na ocasião: “Quando a Globo resolveu jogar o Rambo deles contra o nosso, achamos que seria uma estupidez privar o telespectador de ver o filme original da série, chutar 200 milhões de dólares. Agora, chegamos à conclusão de que sexta é um dia melhor para os longas, dá mais liberdade ao público, porque já está comprovado nos índices de audiência que ela cai sensivelmente após às 22 horas”. Assim,  a TVS não desistiu facilmente da briga.

Como Sílvio Santos nunca ligou em mexer na programação, Calegari agendou a exibição de Rambo I para o dia 26 e a Globo que tem uma política mais severa de mudar o que já está anunciado, apresentou mesmo o segundo filme no dia 17 de agosto de 1988 sem o SBT como rival. Quem ligou na TVS na hora do filme, viu uma mensagem bem-humorada: “Quem procura acha o Rambo na Globo”, brincando com seu próprio slogan na época (Quem Procura Acha Aqui), e no lugar do filme, o canal colocou no ar uma reprise do sertanejo Musicamp. A Globo atingiu naquela noite um incide de 77% de audiência, com 4,6 milhões de expectadores, no Rio de Janeiro, e no mesmo horário o SBT ficou com 5%.

Mas a fim de prejudicar a audiência da concorrente, a Globo levou ao ar um capítulo duplo da telenovela Vale Tudo, terminando a atração apenas às 22h15. Sílvio Santos não queria perder audiência e por essa razão esperou a novela acabar na Rede Globo e sem cerimônia colocou uma imagem parada do Boina Verde e a seguinte legenda: “Não se preocupe, quando terminar a novela da Globo você vai ver: Rambo” e com o tema do filme composto por Jerry Goldsmith de fundo. O letreiro ficou cerca de 50 minutos.

Então, quando finalmente o SBT levou seu filme ao ar, foi um massacre na emissora de Roberto Marinho. Em São Paulo, às 22h15, a Globo tinha 37%, e o SBT já estava com 32%; às 22h30, vitória do SBT por 45% a 23%, mantendo a liderança até o final, cujo placar foi de 48% a 17%. No Rio, a Globo estava com 30% às 22h15, quando o SBT já marcava 38%. Às 23h15, o SBT goleava por 47%, enquanto a Globo tinha apenas 12%.

André Filho, imortalizou o personagem Rambo no Brasil com sua voz marcante.

André Filho a voz do Stallone, a voz do Rambo no Brasil.


No meio de toda essa guerra pela audiência um estúdio se encontrava à margem da situação, mas teria um papel preponderante para ambos os lados, a Herbert Richers. Foi pra lá que a distribuidora enviou os dois longas e o desenho animado para que recebessem o processo de dublagem.

O desenho animado foi o primeiro a ser dublado. O trabalho para sua versão brasileira começou em novembro de 1986 e teve a direção do conceituado José Santana que não pensou duas vezes em escalar André Filho como o herói, uma vez que ele era a voz do Stallone no Brasil desde que assumiu a dublagem de Rocky Balboa.

Ao lado de André um elenco rechedo de talentos ajudava a compor a versão em nosso idioma do desenho. Garcia Júnior fazia o Turbo, Carmen Sheila dava voz a K.A.T., Leonel Abrantes dublava o Coronel Trautman. O time de vozes dos malfeitores também era de arrepiar, com Amaury Costa fazendo o General Warhawk, André Luiz “Chapéu” como Sargento Havoc, Silvio Navas era o Grifo, Ionei Silva o Mad Dog, entre outros grandes nomes da Herbert na época.

Em junho de 1987 chegou à Herbert Richers o primeiro filme da franquia para ser dublado por encomenda da TVS. E mais uma vez André Filho nos presenteia com um show de interpretação. Ele faz um Rambo bonachão, levemente sonolento e de voz tranquila, bem diferente do desenho. Mas quando chega ao seu auge de agressividade transforma totalmente sua forma de falar. A interpretação de André dá bem mais que músculos ao herói, dá uma personalidade forte e marcante.

A dublagem de André Filho chega ao seu ápice na cena final em que ele começa um discurso agitado com o Coronel Trautman mas depois de um desabafo num tom alto, acaba desabando num choro. Ali fica evidente que tudo que se fala até hoje sobre o artista que André foi não é ficção.

A dublagem do segundo filme veio logo em seguida, agora por encomenda da Rede Globo e André permaneceu dando ao herói uma personalidade única.

 

A imortal voz de André Filho.


A palavra genial ganha tons realçados quando nos referimos a alguém que apresenta essa característica no setor profissional ou artístico, mas quando consegue ser de notável genialidade fazendo as duas coisas, é inevitável que ganhe um espaço especial no coração daqueles que admiram sua arte e dos colegas de trabalho.

Assim era André Filho, um dublador detentor de uma grandeza na interpretação que ultrapassou gerações e inspira até hoje o mercado em que atuou. Sim, era mais do que talento, ele era extraordinário no que fazia e cada loop gravado ficava pronto com uma perfeição de sincronismo e interpretação inigualáveis.

Carmen Sheila, dividiu a bancada várias vezes com ele, em especial, vale lembrar do longa Rocky – Um Lutador (Rocky e Adrian) e do desenho Rambo onde ela faz a K.A.T. Taylor. Sheila comenta: “É difícil chegar um novo dublador e igualar a sua arte, embora hoje nós tenhamos grandes dubladores, mas o André inspirava emoção. Ele abraçava o personagem de uma forma maravilhosa!”

Para os mais jovens dubladores que escutam falar das suas façanhas dentro de um estúdio, André é um ser quase mitológico, cujo inalcançável dom o transforma na figura que para muitos é o nome maior da dublagem brasileira. Na concepção de muitos fãs e profissionais de dublagem, André está para dublagem como Pelé está para o futebol.

Sumára Louise recorda: “André Filho é indescritível! Como descrever sua capacidade de adequar a voz? Sua acuidade para o sincronismo? Seu conhecimento do idioma, para transformar um texto? Tarefa difícil falar de André Filho… alegre, mordaz, humor especialíssimo, linda voz, moldaram o maior dublador de todos os tempos! Sou grata por ter dividido a bancada por tantas vezes e ter partilhado sua amizade, o que foi inestimável!”

Foi uma figura extremamente irreverente e muito bem quista na área da dublagem. Sua vaidade em relação ao próprio valor era intensa, sabia que era bom, mas isso não o impedia de se cobrar muito quando estava dublando, afinal ele tinha a consciência que poderia fazer sempre melhor.

André Pereira dos Santos Filho nasceu na Tijuca, Rio de Janeiro,  em 21 de dezembro de 1946 e logo cedo interessou-se pelo rádio, descobrindo-se com a dicção certa pra atuar na área. Começou como locutor aos 16 anos de idade e foi levado ao teatro onde começou suas primeiras lições nas artes cênicas.

Depois de passar pelo rádio começou a fazer dublagem de filmes, séries e desenhos animados. Trabalhou nos estúdios da BKS, Herbert Richers, VTI, Telecine e Peri Filmes. Foi locutor e apresentador de programa radiofônico na Imprensa FM do Rio de Janeiro até o início dos anos 90. André era homossexual.

Por muitos anos foi o único dublador premiado no Brasil, tendo recebido o Troféu Aplauso e, do Aerton Perlingeiro o Troféu Nota 10. Apesar não fumar, não beber gelado, consumir bebida alcóolica comedidamente, resolveu colocar sua voz no seguro. O escritório responsável pelo seguro foi o Sandoval Alecrim, um dos maiores corretores independentes da época.

Além de Stallone, o dublador ficou marcado por emprestar a voz aos atores Burt Reynolds, Sean Connery e Steve Martin, além dos personagens O Homem de 6 Milhões de Dólares, Kwai Chang Caine (Kung Fu), Jonathan Hart (Casal 20), Vincent (A Bela e a Fera), Sebastião (A Pequena Sereia), Corredor X (Speed Racer), entre outros.

Faleceu em 1997, com 50 anos completos, vítima de complicações de saúde relacionadas à AIDS. Apesar da morte, deixou um legado de fabulosas dublagens que sobrevivem na memória de muitos.

Izaías Correia
Izaías Correia
Professor, roteirista e web-designer, responsável pelo site InfanTv. Também é pesquisador da dublagem brasileira.

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