Matérias Por Trás da Dublagem

Por Trás da Dublagem: A primeira dublagem de De Volta Para o Futuro.

A  dublagem clássica do filme de Robert Zemeckis que corre o risco de se perder.


Acabamos de entrar no Deloren, nosso destino é o ano de 1985 e nossa missão presenciar o sucesso do filme De Volta Para o Futuro. A viagem nos leva até o dia 5 de setembro daquele ano e já faz 11 semanas que longa saiu nos Estados Unidos mas ainda continua em primeiro lugar nas bilheterias americanas. Nós brasileiros, não vemos a hora dele chegar por aqui.

Mais uma vez a máquina do tempo é colocada para funcionar, o destino agora é o dia 25 de dezembro de 1985. Estamos no Shopping Ibirapuera, são 12h50 e uma enorme fila espera a abertura da sala de projeção para assistir o lançamento do filme no Brasil, não se fala em outra coisa. Entre as pessoas daquela fila está Orlando Viggiani e sua família, ele nem imagina a ligação com o filme que o futuro lhe reserva.

Em todas as partes do mundo, era a mesma história, o filme dirigido por Robert Zemeckis, e escrito por ele e Bob Gale foi um imenso sucesso. Acabou arreca-dando US$ 210.609.762 na América do Norte e US$ 170.500.000 em outros territórios, acumulando um total mundial de US$ 381.109.762. De Volta Para o Futuro teve o quarto melhor fim de semana de estreia de 1985, e foi o filme de maior arrecadação do ano. Também foi aclamado pela crítica especializada e recebeu o Oscar de Melhor Edição de Som, para Charles Campbell e Robert Rutledge, enquanto “The Power of Love” foi indicada para Melhor Canção Original; Zemeckis e Gale receberam a indicação para Melhor Roteiro Original e Bill Varney, B. Tennyson Sebastian II, Robert Thirlwell e William B. Kaplan para Melhor Mixagem de Som.

O longa-metragem que conta a história de Marty McFly (Mi-chael J. Fox), um adolescente que sendo amigo do inventor Dr. Brown, volta no tempo até 1955, conhece seus futuros pais no colégio e acidentalmente faz sua futura mãe ficar romanticamente interessada por ele, até hoje é reverenciado pelos fãs de ficção científica e aventura. Suas outras duas fantásticas continuações formam uma trilogia muito bem costurada e que tornam a experiência de assistir os três filmes juntos não apenas fascinante como necessária.


Dublagem clássica.


Entramos novamente no Delorean e programamos em seu painel o dia 11 de dezembro de 1989. Nossa viagem nos leva até a noite em que finalmente De Volta Para o Futuro estrearia na televisão brasileira. São 21h49 e ao entrarmos na sala nos deparamos com os créditos finais da telenovela Tieta, vêm os anunciantes, a vinheta da Tela Quente e começa na Rede Globo o gigantesco sucesso daquele momento.

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A série animada também teve a dublagem da BKS. Orlando Viggiani e Eleu Salvador reviveram seus personagens.

Quando o filme já era sucesso nas bilheterias e em seguida foi campeão de locações (numa época em que o videocassete se popularizava), a ansiedade por sua estreia na televisão era algo comum nos fãs de cinema, afi-nal… viria dublado! Finalmente o público infantil poderia compreender melhor a narrativa. O dublador carioca Nizo Neto comenta: “lembro que foi um choque pra mim, ver a chamada na Globo, quando eu dublava o Michael J. Fox em Caras e Caretas e estava ansioso para que chegasse para ser dublado na Herbert Richers e o distribuidor mandou pra BKS”. Sim, o filme foi parar em São Paulo para ser adaptado ao nosso idioma e a partir dali muitas portas foram abertas no estúdio com a chegada de produções mais sofisticadas.

A BKS escolheu para a direção um dos nomes mais conceituados da dublagem paulista, Denise Simonetto. Denise recorda: “Fui eu mesma quem escolheu as vozes. Não fizemos testes. Eu determinei quem dublaria cada personagem. Quando chegaram os outros dois vieram com uma solicitação dos Estados Unidos para que fizéssemos testes com os dubladores que tinham feito o primeiro e mais duas opções, para que fosse avaliados e escolhidos pelo Spielberg. Ele manteve todas as vozes já escolhidas e que tinham dublado o primeiro.” E que vozes! Para o garoto Marty McFly foi chamado o “eterna voz de garotão” Orlando Viggiani, que deu um verdadeiro show. Eleu Salvador fez parceria com ele, dando voz ao cientista Doutor Brown e ambos interpretaram personagens que marcariam suas carreiras eternamente.

Orlando Viggiani lembra que quando o filme saiu no Brasil foi com a família assisti-lo nos cinemas. Lá se deparou com a dificuldade das crianças presentes entenderem o filme por conta das rápidas legendas. Ele acabou indo embora com a esposa e os filhos antes do final da projeção. Um ano e meio depois recorda com orgulho o fato de ter sido escalado para dublar o Michael J. Fox na produção.

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Na televisão o filme também foi um enorme sucesso e sua dublagem muito bem aceita pelos fãs da produção. O trabalho todo da BKS, foi realizado sem falhas, o elenco funciona muito bem, a tradução e direção estão impecáveis. “Fizemos esta dublagem com muito carinho, e na minha opinião, claro, as vozes foram muito bem escolhidas e a interpretação estava bem adequada aos personagens. Claro que, na época, não tínhamos ideia que aquilo se transformaria em um clássico. Estávamos apenas dublando um bom filme o melhor possível.”, afirma Denise Simonetto.

Vieram então as continuações para a BKS e mais uma vez o trabalho primoroso da equipe paulista foi notado, apesar das dificuldades técnicas que enfrentaram. Denise recorda: “pela tecnologia que tínhamos na época, onde se trabalhava apenas com 3 pistas disponíveis, a dublagem do segundo filme foi extrema-mente complicada, já que vários dubladores tinham que fazer mais de um personagem, principalmente para o Orlando Viggiani que tinha cenas onde todos os personagens em cena teriam que ser dublados por ele. O Marty como pai, o filho, a filha, e ele normal. Com poucas pistas foi uma loucura!”.

Manolo Rey em 2005 e Orlando Viggiani em 1989, os dubladores de Marty.

Porém havia um problema, que incomoda os menos saudosistas e mais exigentes diante da qualidade sonora, a BKS sempre teve um som abafado e como alguns dizem parecia que estavam falando dentro de uma lata. Sobre isso o dublador Nelson Machado opina: “a tecnologia de hoje faz de qualquer som um som novo… estava um pouquinho na hora de perceberem que na dublagem, só no som do filme, algumas coisas também viraram clássicas”. Mas não teve jeito, quando o filme foi lançado em DVD no Brasil a distribuidora acabou optando por redublá-lo. “É dolorido também para quem participou da primeira versão, principalmente se for um filme emblemático como este. Como participante e como público amoroso, acho que deveriam sacrificar a qualidade do áudio em nome dessa memória afetiva. Como profissional de dublagem tento pensar que é mais trabalho para todos nós.”, lamenta Denise Simonetto.

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A redublagem ficou a cargo do estúdio carioca Doublesound, que também, através da direção da competente Marlene Costa, escalou bons nomes para o elenco. Manolo Rey faz Marty McFly e o Dr. Emmett L. Brown é dublado pelo Mauro Ramos. Apesar do lamento dos fãs, o trabalho feito pela Doublesound não deixa a desejar e a qualidade sonora está impecável. A adaptação acabou sendo exibida em reprises de outras emissoras, na TV Paga, além de ser lançada em DVD e no Netflix, tornando-se a versão para português mais conhecida do público jovem.

Uma terceira dublagem surgiria ainda para exibição em avião, com o trabalho da Delart e direção de Pádua Moreira. A dupla de protagonistas recebeu as vozes de Marcus Jardym (Marty McFly) e Ionei Silva (Dr. Brown). Apesar de ter profissionais sérios e compromissados com o público de De Volta Para o Futuro emprestando suas vozes nos três estúdios, o charme da primeira dublagem, aquela que muita gente ouviu na noite de dezembro de 1989 e que continuou escutando ao longos de suas reprises, jamais sairá da memória afetiva do público brasileiro.

Izaías Correia
Izaías Correia
Professor, roteirista e web-designer, responsável pelo site InfanTv. Também é pesquisador da dublagem brasileira.

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