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Branca de Neve, a primeira dublagem brasileira.

Com vozes de Dalva de Oliveira e Carlos Galhardo, nomes conceituados do Rádio no Brasil, a animação alcançou grande repercussão.


Walt Disney já tinha produzido curtas-metragens de animação do Mickey Mouse e Silly Symphonies, quando resolveu entrar num projeto mais arriscado, a realização de um longa-metragem. Ele tinha o intuito de ampliar seu estúdio, e estimou que Branca de Neve e os Sete Anões, uma obra adaptada dos Irmãos Grimm, poderia ser produzida com um orçamento de 250 mil dólares, mas que traria um retorno muito maior.

No primeiro momento as opiniões foram contrárias ao projeto, seu irmão Roy Disney e sua esposa Lillian tentaram fazê-lo desistir e a indústria de Hollywood chamava o filme de “Loucura de Disney”. Mas Branca de Neve e os Sete Anões foi concretizado e em poucas semanas do seu lançamento já tinha recuperado todos os gastos de produção, arrecadando 8 milhões de dólares em bilheterias em todo o mundo, sendo na época a maior renda de um filme sonoro.

Branca de Neve e Os Sete Anões arrecadou 8 milhões de dólares em bilheteria.

Para supervisionar a animação, Disney contratou Hamilton Luske que recebeu a incumbência de desenhar os personagens o mais próximo de figuras humanas possível, fugindo dos esboços iniciais que mostravam uma Branca de Neve muito caricata, parecida com a personagem Betty Boo. Mas Luske e o co-animador Les Clark já haviam trabalhado em A Deusa da Primavera para a Silly Symphonies, e trouxeram a mesma técnica usada lá, de usar pessoas reais como referência para os movimentos das personagens. A dançarina Marjorie Celeste Belcher acabou servindo de modelo para as ações de Branca de Neve, ela seguia as instruções de Luske e em seguida os animadores estudavam e copiavam as imagens para aumentar o realismo da personagem principal.

Mas por se tratar de um musical um cuidado grande estava em torno do som da animação. Depois de 150 candidatas para a voz de Branca de Neve terem sido reprovadas, a filha do professor de canto Guido Cazelotti, de 20 anos de idade, Adriana, foi a escolhida. A menina assinou um contrato que a proibia de cantar na rádio antes do lançamento de Branca de Neve e os Sete Anões.


Oito canções dão o clima do desenho. Elas foram compostas por Frank Churchill e Larry Morey. Paul Smith e Leigh Harline fizeram a trilha de música incidental. As excelentes canções incluem “Heigh-Ho”, “Someday My Prince Will Come” e “Whistle While You Work”. Como Disney ainda não tinha a sua companhia de publicação até então, os direitos de gravação da trilha sonora foram administrados pela Bourne Co. Music Publishers, que continua até hoje a manter essas licenças. O desenho foi lançado nos Estados Unidos no dia 4 de fevereiro de 1938 e o sucesso da animação fez com que Walt Disney colhesse frutos por muito tempo, chegando no 11° Oscar a receber um prêmio honorário. Até que o produtor resolveu lançá-lo em outros países.

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Dublagem Artesanal.


No dia 20 de agosto de 1938 a distribuidora RKO concedeu uma cópia de Branca de Neve e Os Sete Anões para ser exibida no Palácio do Governo onde Getúlio Vargas e sua família puderam assistir em primeira mão o grande sucesso daquele momento. Até que no dia 5 de setembro o público brasileiro teve acesso à obra de Disney, que inicialmente foi exibida nos cinemas São Luís e Odeon, sendo trazido pela Sonofilms. Para isso, precisou ser dublada com o intuito de alcançar um maior público infantil.

A dublagem de produtos estrangeiros já era comum na Europa, mas Disney queria mais, mandou um representante de sua equipe para cada país onde o desenho seria exibido e dublado. No Brasil esse trabalho foi feito pela Cinelab, nos estúdios da Columbia Discos, que era de Alberto Byington, dono da Sonofilms.

Para desenvolver o trabalho de adaptação foi chamado Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha (primeira foto da matéria), conceituado compositor de marchinhas da época, e popularmente conhecido no meio musical pelo pseudônimo de João de Barro. Entre outros trabalhos, ele havia feito em 1937, a letra do samba-choro “Carinhoso”, de Pixinguinha. Braguinha, então diretor artístico da Columbia, adaptou e traduziu as oito músicas do desenho, além de escalar o elenco e dirigir o trabalho de dublagem.

Dalva de Oliveira, a primeira voz da Branca de Neve no Brasil

Sua função à frente da adaptação de Branca de Neve e os Sete Anões ficou a cargo de Ruy de Castro e para o elenco de vozes, Braguinha escalou o que havia de melhor da música brasileira na época, já que grande parte do sucesso da animação estava embasada nas canções. Para o papel de Branca de Neve foi escolhida Dalva de Oliveira e Carlos Galhardo foi escalado para emprestar sua voz ao Príncipe, chegando a impressionar Phil Reisman, diretor da RKO, que o considerou melhor que o tenor da versão americana. Outros nomes da dublagem brasileira foram: Almirante, Batista Júnior, Túlio Lemos, Cordélia Ferreira e Estephana Louro.

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Na ocasião em que a dublagem foi realizada, a RKO Pictures enviou técnicos americanos para o Brasil para escolher quais cinemas iriam exibir o filme. O supervisor americano da Disney, Jack Cutting, declarou estar admirado como o Brasil havia conseguido fazer um trabalho tão primoroso com o equipamento tão rudimentar para época, onde para se realizar eco era necessário se cantar trancado em cômodos onde essa reflexão de som pudesse ser notada de maneira natural.

A Redublagem


A dublagem original de Branca de Neve e os Sete Anões foi mal conservada e acabou sendo necessário a gravação de uma redublagem em 1965,realizada na extinta Rio-som. O trabalho de redublagem teve a supervisão de Aloysio de Oliveira, direção de Telmo Avelar e tradução de Gilberto Souto e Telmo Avelar.

No papel principal estava a rádio atriz Maria Alice Barreto, que gravou apenas os diálogos, apesar de ser cantora também. Como a atriz estava habituada à Bossa Nova, acreditou que não tinha voz para ambas as funções e a princesa acabou sendo interpretada nas músicas por Cybele Freire.

Outros grandes nomes que fizeram parte do trabalho de adaptação foram os de Estelita Bell (Bruxa), Luís Motta (Espelho Mágico e Feliz), Domício Costa (Caçador), Orlando Drummond (Atchim), Allan Lima (Soneca), Ênio Santos (Zangado), Navar-ro de Andrade (Dengoso) e Ma-galhães Graça (Mestre).

Essa acabou sendo a dublagem mais conhecida não apenas por suas exibições na televisão ao longo dos anos como nos lançamentos do desenho em DVD e VHS.

Em 1945, a Continental iniciou um projeto de lançar historinhas infantis em discos. Braguinha mais uma vez supervisionou a gravação da história, adaptando-a para os LPs. Reuniu quase todo o elenco de 1938 e o grupo Trovadores como apoio vocal. A regência do trabalho ficou a cargo do maestro Guerra Peixe. Depois, Braguinha passou a se dedicar aos discos infantis, lançando a Coleção Disquinho com mais de 60 histórias.

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ELENCO DA DUBLAGEM ORIGINAL:


Branca de Neve Dalva de Oliveira

Príncipe Encantado Carlos Galhardo

Rainha Cordélia Ferreira

Bruxa Estephana Louro

Espelho Mágico Almirante

Caçador Túlio Lemos

Mestre Almirante

Atchim Edmundo Maia

Soneca Batista Júnior

Zangado Aristóteles Pena

Dengoso Delorges Caminha

Feliz Aristóteles Pena
Izaías Correia
Izaías Correia
Professor, roteirista e web-designer, responsável pelo site InfanTv. Também é pesquisador da dublagem brasileira.

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