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Sons da Memória: Karatê Kid – A Dublagem da Verdade

Como a versão brasileira transformou um sucesso americano em fenômeno afetivo nacional.


Quando foi lançado em 1984 nos Estados Unidos, Karatê Kid – A Hora da Verdade poderia ter sido apenas mais um filme juvenil com a fórmula batida do “perdedor que dá a volta por cima”. Mas, contra todas as probabilidades, tornou-se um fenômeno cultural, criando raízes profundas no coração de uma geração — e, surpreendentemente, fazendo o mesmo do outro lado do continente, no Brasil. Só que por aqui, o segredo do sucesso estava além dos golpes de karatê: estava nas vozes.

A história do garoto novato que é visto como motivo de diversão por um grupo de arruaceiros da academia de karatê local, até hoje é vista com satisfação, passando ao longo das gerações com uma aceitação impressionante. O sucesso de Karatê KidA Hora da Verdade incentivou a produção de mais três sequências e um remake.


Um filme com cheiro de Sessão da Tarde (e alma também)


Dirigido por John G. Avildsen (Rocky – Um Lutador) e escrito por Robert Mark Kamen, o filme trazia a clássica história do adolescente deslocado que sofre bullying e encontra redenção ao lado de um mestre sábio — neste caso, o imigrante japonês Sr. Miyagi.

O jovem Ralph Macchio e o experiente Noriyuki “Pat” Morita formaram uma dupla poderosa. Morita, aliás, foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e ao Globo de Ouro, algo raro em produções juvenis. O carisma da dupla ultrapassava o clichê, e o público acreditava naquele laço comovente entre mestre e discípulo.

Cleonir dos Santos, eternamente uma voz de garoto.


Um fenômeno cultural nas telinhas brasileiras


Lançado nos cinemas brasileiros sem grande alarde em 1984, o filme não causou muito impacto inicial. Somente com a chegada da sequência, dois anos depois, houve uma divulgação mais robusta nas salas de exibição e na imprensa. Mas o que realmente consolidou Karatê Kid no imaginário popular brasileiro foi sua estreia na televisão, especificamente na Rede Globo, em 24 de agosto de 1987, às 16h25, num domingo.

E foi ali, na vitrine nacional por excelência, que o filme ganhou nova vida graças ao talento da dublagem brasileira — com um resultado que até hoje é considerado referência.


A dublagem: o golpe certeiro


Em 1987, a Herbert Richers recebeu a missão de dublar o primeiro filme da franquia para a televisão. A escalação foi conduzida pela diretora Ângela Bonatti, que fez escolhas tão certeiras quanto os golpes do Sr. Miyagi.

Quando o veterano em dublagem Magalhães Graça recebeu o papel do enigmático Sr. Miyagi, e o então quarentão Cleonir dos Santos foi escalado para dar voz ao jovem Daniel Larusso, nenhum dos dois poderia imaginar que estavam prestes a realizar os trabalhos mais marcantes de suas carreiras. Graça já era uma referência nos estúdios por sua voz grave, pausada e respeitosa, com uma longa trajetória emprestando vida a personagens idosos e figuras de autoridade. Mas foi como Miyagi que ele encontrou a síntese perfeita de sua habilidade: a sabedoria serena, o humor contido, a emoção contida nos silêncios — tudo isso atravessou gerações de telespectadores brasileiros.

Já Cleonir, com sua impressionante capacidade de soar genuinamente jovem sem exageros ou caricaturas, foi essencial para que o público acreditasse na angústia, na ansiedade e, sobretudo, na transformação de Daniel. Sua interpretação vibrava nos momentos de insegurança e crescia com o personagem, tornando a jornada do protagonista ainda mais emocional e identificável. Ambos os dubladores foram escalados com uma precisão quase cirúrgica por Ângela Bonatti, que enxergou neles não apenas competência técnica, mas a alma dos personagens em português. Sem saber, os dois dubladores haviam carimbado para sempre seus nomes na história da dublagem brasileira — e no coração de milhões de fãs.

Daniel e Miyagi, com vozes que vestiram muito bem os personagens no Brasil


Um elenco coadjuvante que não fica atrás


Além da dupla principal, o elenco de apoio na dublagem também brilha. Marcos Miranda interpreta John Kreese, o treinador impiedoso da academia Cobra Kai, com a rigidez autoritária ideal. Já Mário Jorge Andrade, na  voz do rebelde Johnny Lawrence, entrega um tom debochado, um misto de malandragem e arrogância, que quase nos faz torcer contra ele.

Domingos Sávio Júnior, responsável pela adaptação, soube inserir gírias e expressões da juventude brasileira dos anos 80 sem descaracterizar os personagens. O resultado é um trabalho que não apenas traduziu o filme — mas o recriou culturalmente para o Brasil.


O legado da primeira dublagem


Curiosamente dos três filmes lançados em que Ralph faz Larusso, Cleonir dos Santos dublou em apenas dois; enquanto nos quatro filmes onde “Pat” Morita interpreta o Sr Miyagi também só em dois trabalhos Magalhães Graça emprestou sua voz ao ator, pois faleceu em janeiro de 1989, ano de lançamento do terceiro filme.

Recentemente para Blu-Ray o filme foi redublado pelo estúdio Dublavideo. A diretora Bonatti afirma que não havia necessidade disso, que a distribuidora deveria ter mantido o trabalho original dos dubladores e criadores dos personagens em português, pois havia a possibilidade de remasterização. Ela compara: “imagine se na atualidade, as grandes obras de pintores, escultores, entre outros, fossem refeitas e o trabalho original de tantos filmes inesquecíveis fosse refilmado. Não consigo imaginar essa barbaridade! Seria como se nós fôssemos apagando a história”.

Na internet, em fóruns e redes sociais, fãs seguem exaltando a dublagem original. “Melhor que o original”, dizem uns. “Essa dublagem me fez chorar”, relatam outros. Há um sentimento unânime: a dublagem da Herbert Richers não apenas ajudou a contar a história — ela virou parte dela.

Não à toa, quando a série Cobra Kai estreou no Brasil pela Netflix, um dos maiores pedidos dos fãs era: “tragam a dublagem original”. E parte dela voltou, inclusive com vozes clássicas. evidentemente por conta do falecimento de Cleonir dos Santos, o personagem Daniel recebeu a voz de Nizo Neto na série.


Ralph Macchio
(Daniel Larusso)
Cleonir dos Santos


Pat Morita
(Miyagi)
Magalhães Graça


Martin Kove
(John Kreese)
Marcos Miranda

William Zabka
(Johnny Lawrence)
Mário Jorge

Ali
(Elisabeth Shue)
Marisa Leal

Randee Heller
(Lucille Larusso)
Sõnia Ferreira

Chad McQueen
(Dutch)
Eduardo Borgeth

Ron Thomas
(Bobby)
Marco Antônio Costa

Rob Garrison
(Tommy)
Carlos Marques

Israel Juarbe
(Freddy Fernandez)
Ricardo Schnetzer
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Izaías Correia
Professor, roteirista e web-designer, responsável pelo site InfanTv. Também é pesquisador da dublagem brasileira.