Baú da Dublagem Matérias

Arte, talento e dublagem.

Uma análise de quem são os verdadeiros artistas no mundo da dublagem.


O que é Arte? Arte para mim é uma forma de expressão. O artista ama a arte, porque não consegue viver sem ela, para mim um artista que não vivencia a arte não é um artista!

O que é Talento? O conceito de talento é muito mais difícil, porque é relativo, depende de outros fatores, mas a princípio talento seria algo que uma pessoa tem uma capacidade especial para fazer alguma coisa! Então, existe artista sem talento? Como Arte e Talento são relativos: sim.

Os artistas da Semana de Arte Moderna de 1922 foram considerados sem nenhum talento, que amavam, e eram bons no que faziam, na minha opinião tinham muito talento, mas eles faziam o que amavam, e eram bons no que faziam, na minha opinião tinham muito talento.

Talento é algo bem complicado de se debater porque é muito relativo. Principalmente em Arte, outra coisa relativa. Um ator ou dublador que não consegue elaborar uma boa interpretação é um artista? Ele estuda, já fez aulas, mas não tem jeito, suas interpretações são medíocres, ele não consegue. Ninguém irá dizer que ele é um artista, por mais que ele diga que é o sonho dele ser um, ele precisa de habilidade, ele precisa de talento.


Helena Samara e Zaira Nacarato, dublagem feita de forma quase artesanal.

A Dublagem e a arte.


A História da Dublagem Brasileira, nesses 54 anos de existência, oficialmente, demonstra diversos aspectos onde a Arte e o Talento estiveram sempre de mãos dadas. Isso ocorreu principalmente nas décadas de 1960, 70 e 80 onde grandes estúdios de dublagem (na qualidade) proporcionaram profissionais exemplares.

Em São Paulo, a AIC, sem dúvida foi uma verdadeira “escola” de dublagem, por onde passaram nomes que desenvolveram trabalhos primorosos. O surgimento do estúdio Álamo, em 1972, e da BKS em 1976, continuaram na mesma linha mestra.

Seria impossível aqui, lançar todos os nomes de dubladores dessas três décadas que mostraram a Arte e o Talento na dublagem. Serão sempre inesquecíveis: Borges de Barros, Helena Samara, Marcelo Gastaldi, Waldyr Guedes, Older Cazarré, Olney Cazarré, Carlos Campanile, Ézio Ramos, Libero Miguel, Amaury Costa, Gessy Fonseca, além de novos que surgiram como Ce-cília Lemes, Nelson Machado e Hermes Baroli. Citei apenas al-guns de uma lista imensa.

No Rio de Janeiro, o estúdio Cinecastro foi outro grande gerador de dubladores que uniram a Arte e o Talento. Praticamente estiveram presentes também em outros estúdios como Riosom, Dublasom Guanabara, TV Cinesom, desaguando todos no estúdio Herbert Richers, o qual marcou a história da dublagem brasileira em três décadas com um time de profissionais talentosos (foto de destaque).

Por lá passaram artistas como Magalhães Graça, Glória Ladany, Darcy Pedrosa, Nelly Amaral, Newton da Matta, Sumára Louise, Silvio Navas, Mário Monjardim e Orlando Drummond que fizeram dublagens de desenhos, séries de TV e filmes até hoje referência de uma extraordinária união de Arte e Talento.

Novos nomes também foram surgindo, assim como em São Paulo. Grandes exemplos desses profissionais são: Garcia Júnior., Marisa Leal e Márcio Seixas. Citei apenas alguns de uma lista também muito grande.

Atualmente, se questiona se o Talento e a Arte se desuniram na dublagem. Na minha opinião, creio que é algo que depende de fatores que absolvem, de certa forma, os novos dubladores. Há uma nova geração de profissionais excelentes.

Em São Paulo: Tatá Guarnieri e Wendel Bezerra são dois nomes da linha de frente e no Rio de Janeiro a grande revelação é Eduardo Drummond, com tão pouca idade, já demonstra um Talento fantástico herdado, talvez, de Orlando Drummond.

Sede da Arte Industrial Cinematográfica (AIC), uma “escola” de dublagem.

A Insatisfação com a dublagem atual.


E por que há tantas queixas das atuais dublagens? O problema consiste no indivíduo que escolhe o elenco de vozes adequadas a cada personagem, consiste em se abrir mais o mercado para que novos talentos possam ter a oportunidade de mostrarem o seu potencial, em não permanecer escalando sempre nomes conhecidos, porém inadequados ao personagem, simplesmente por determinações superiores de distribuidoras, ou seja, há a necessidade grande dos estúdios ficarem mais independentes.

Sem liberdade, teremos sempre muito mais dublagens medíocres, regulares e pouquíssimas onde a Arte e o Talento se unem e nos transformam em admiradores incondicionais de seus trabalhos.

Infelizmente, se por um lado houve um aumento do número de estúdios (abrindo mais o mercado de trabalho para os dubladores), a concorrência entre eles não chegou a ser benéfica, pois as distribuidoras querem sempre o menor preço, sem nenhuma preocupação com a qualidade do produto.

Tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro, há hoje um novo modelo de estúdio (menor, mais enxuto de gastos), mas, na minha opinião poucos conseguem estabelecer trabalhos de excelente qualidade.

Cito os estúdios Sigma e Clone como remanescentes de um processo ainda focado mais na Arte e Talento. O estúdio BKS, com sua alta tecnologia, necessita retornar a ocupar o espaço que teve nos anos 80 e 90, mas suas atividades ainda estão um tanto lentas. No Rio de Janeiro, a Delart e a Áudio News Dublagem são as que despontam também com um perfil parecido com os estúdios que mencionei de São Paulo.

Quando citamos que a dublagem de 30, 40 ou 50 anos atrás, apesar da tecnologia ainda muito precária, eram mais vibrantes, na realidade queremos dizer que: a Arte e o Talento era tudo o que os dubladores tinham e, por isso, eram artistas, não porque conseguiam dublar com qualidade, mas porque faziam aquilo com Amor, do fundo do coração.

Essa razão, essa chama, deveria retornar a todos os dubladores, diretores de dublagem e estúdios. Só assim, continuaremos a admirar uma nova dublagem!

Marco Antônio dos Santos
Marco Antônio dos Santos
Professor, pesquisador de dublagem e responsável pelo blog Universo AIC.

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