Matérias Por Trás da Dublagem

Por Trás da Dublagem: Os Goonies.

Jovens talentosos dão vozes brasileiras a uma inesquecível aventura, tudo sob supervisão de um Mestre da Dublagem.


Personificação dos nossos sonhos de criança, Os Goonies nos presenteou com um grupo de aventureiros mirins que passou pelos anos 80 como uma febre, contagiando pessoas de todas as idades.

O longa de Richard Donner é um reflexo daquela nossa turma da rua, daqueles amigos de infância com quem compartilhávamos nossas aventuras ou ainda dos inseparáveis vizinhos que assim como nós não conheciam limites para sonhar. Pois bem, tudo isso foi transformado em filme com uma história repleta de ação, humor e suspense.

O roteiro é de Chris Columbus, o mesmo que anos depois dirigiria os dois primeiros filmes do Harry Porter, mas a história é de um sujeito que se acostumou a trabalhar com os sonhos das crianças, Steven Spielberg, que também se responsabilizou pela produção do filme ao lado da sua poderosa Amblin Entertainment, não poupando verba para conceber o título.

O resultado é que em 1985 era lançado uma das mais marcantes aventuras feitas para as crianças que a década de 1980 já viu. Um estrondoso sucesso com centenas de produtos licenciados, uma trilha sonora de grande repercussão (que incluía a canção “Good Enough” interpretada por Cindy Lauper) e faturamento só nos cinemas de 61,5 milhões de dólares. O filme chegou a influenciar outras produções como Stranger Things, apesar de ele mesmo não ter recebido uma continuação.


Os Goonies, personificação dos sonhos de criança.

A História.


O filme inicia num conjunto residencial onde vivem as crianças Mikey, Bolão, Bocão e Dado, que estão na faixa dos 10 aos 16 anos. O local onde eles moram fica na pequena cidade litorânea de Goondocks (daí o nome do grupo infantil) e está prestes a ser demolido onde construirão um clube de golfe na área, o que forçará a mudança de todos os residentes do local.

Por esse problema, o conjunto de pequenos amigos resolve organizar uma cerimônia de despedida do local, e descobrem um legítimo mapa do tesouro escondido no porão de um deles, que pode torná-los ricos, capazes de pagar as dívidas de seus pais e comprar o terreno para não terem que se separar.

O quarteto unido a Brand, irmão de Mikey, Andy e Stef, partem em busca de um tesouro escondido pelo pirata Willy Caolho, que segundo a lenda, sumiu na região. Mas entre a turma de aventureiros mirins e o ouro, está uma família de criminosos, os Fratelli, composta pela matriarca, seus dois filhos abobalhados e o deformado Sloth. A partir daí, os jovens terão que enfrentar muitas enrascadas em cavernas escuras e lugares cheios de caveiras e armadilhas.

Entre os Fratelli um destacou-se, Sloth, que mesmo com a aparência horrível, mentalmente debilitado e renegado pela família, tinha um bom coração e por essa razão acabou virando amigo da criançada. Aqui mais uma vez Spielberg oferece a mensagem: “não tema o feio e desconhecido”, como já feito em outras obras.

Cartaz do filme quando foi lançado nos cinemas brasileiros.

No Brasil uma dublagem inesquecível.


Os Gonnies chegou ao Brasil com muito sucesso estreando nas telonas brasileiras no dia 12 de dezembro de 1985. Não era comum dublar produções para o cinema em meados dos anos 80, dessa forma, a criançada que se arriscou nas bilheterias para vê-lo teve que encarar uma versão legendada que dificultava o acompanhamento de detalhes do filme.

Já na televisão, finalmente os brasileiros puderam ouvir Mikey e seus amigos falando em português. O filme estreou no dia 15 de abril de 1991 dentro da Tela Quente às 21h30 e foi uma sensação desde então, tornando-se um dos maiores clássicos da Sessão da Tarde e campeão de reprises.

A Warner enviou Os Gonnies para receber a dublagem da Herbert Richers. Na ocasião a supervisão ficou por conta de Elena de Oliveira que organizou horários, lista de “bonecos”, informando quem já tinha dublado quem e o quê. Em seguida ela colocou todas as informações nas mãos do eficiente Newton da Matta, um dos mais extraordinários diretores que o estúdio tinha na época, dando início à dublagem do filme em novembro de 1990.

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Da Matta era um dos mais detalhistas diretores do estúdio e por essa razão inúmeras dublagens sob seu comando até hoje são consideradas impecáveis, mesmo com a evolução nessa área. “Da Matta era um diretor exigente e ao mesmo tempo deu chance a muita gente começando. Ele era genial! E acho que ele era exigente porque ele sabia fazer!”, comenta Miriam Ficher a voz da Stef no filme.

Da Matta, que emprestou sua voz a atores como Dustin Hoffman, Bruce Willis, Mickey Rourke e Terence Hill, tinha um jeitão peculiar de dirigir, pois sua genialidade fazia com que extraísse o melhor que cada profissional podia oferecer. Às vezes ele excedia na forma de cobrar uma atuação, mas sabia até onde seus escolhidos podiam chegar e por isso buscava sempre o melhor resultado.

De frente para um elenco jovem e primoroso da Herbert, o diretor, na verdade, não teve muitos problemas para conduzir o processo de dublagem. Marisa Leal que fez a voz da personagem Andy Carmichael (Kerri Green), lembra: “ele tinha lá suas excentricidades. Mas com a gente lá não houve muito isso, porque todo mundo era experiente, e foi mais divertido. Ele se divertiu bastante, ele brincou bastante.”

Foi dada total liberdade ao Newton da Matta para escolher o elenco de vozes sem a realização de testes, e mesmo com inúmeros dubladores adultos na Herbert Richers que atuavam com falsetes de crianças, ele optou por montar um time jovem de dubladores. Manolo Rey, a voz do Dado (Jonathan Ke Quan) recorda: “ele escolheu o elenco com base em quem já dublava quem e eu acabei ficando com o japonesinho que eu nunca tinha dublado. A partir dali começou a constar meu nome nos arquivos como já tendo dublado o japonesinho”.

Numa época em que a dublagem era realizada todos juntos na bancada, colocar sete jovens reunidos para gravar poderia ser uma loucura, não fosse o compromisso de cada profissional ali escalado. Oberdan Junior que interpretou o Mikey (Sean Astin) conta que no elenco só tinha nomes talentosos e que na época a dublagem passava por um momento onde o talento falava mais alto do que a técnica. Ele afirma que viu muitas interpretações brilhantes na Herbert, inclusive do próprio Da Matta, fazendo A Gata e o Rato com Sumára Louise no que ele descreve como impressionante!

A seriedade envolvida no trabalho era tamanha que havia sim momentos para descontração sem que isso comprometesse o processo de gravação. Maria Leal recorda: “quem não tava na bancada tava sentado no chão, ficava um deitado no colo do outro, era a maior bagunça, a maior festa dentro do estúdio, porque a gente se divertiu muito”. Miriam Ficher também tem na lembrança que a dublagem conjunta era sempre uma festa: “quando era um filme com muitos jovens, era sempre muito alegre. Na hora do almoço era uma festa. Tenho boas recordações daquela época”. Sobre a interpretação conjunta Manolo diz que na época que todo mundo atuava dessa forma era muito mais gostoso pois havia uma interação mais consciente, “a pessoa dava uma inflexão e você correspondia a ela, era muito mais fácil ter a contracenação. O loop saía pronto.”

Havia uma união do jovem elenco. Peterson, a voz do Gordo, em início de carreira, recorda: “Eram todos já muito talentosos, eu estava chegando naquele momento e tinha pouca experiência. Mas eles são tão profissionais, todo aquele grupo, que a cada cena que eu fazia eles procuravam me proteger nas gravações. Era um clima muito agradável!”

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Com nomes de inquestionável talento da dublagem e um diretor empenhado a cada loop o resultado final de Os Goonies só poderia alcançar voos tão altos. Muita coisa que Spielberg assina já foi redublada no Brasil por conta da exigência do diretor, mas o filme permanece sem redublagem até hoje, com sua versão em português apreciada na TV aberta ou paga, além de Netflix, preservada com status de clássica, tanto quanto o próprio filme. “Eu só espero que não redublem, porque com esse negócio de redublar tudo por causa de direitos conexos, talvez venham a redublar.”, comenta Marisa Leal.

A repercussão até hoje do trabalho da Herbert Richers na produção de Donner é firmada na memória afetiva de quem foi criança na época e não perdia as reprises do filme, principalmente na Sessão da Tarde. Não há como desassociar a imagem dos moradores mirins de Goondocks com as vozes brasileiras colocadas nele. Ficher comenta: “quando a gente dubla um filme, não se tem a menor noção de como vai ser a repercussão. De repente você dubla uma coisa que vira um clássico. Eu costumo dizer que você tem que ter a mesma dedicação em qualquer tipo de trabalho.”

A estreia na televisão também foi esperada por alguns dubladores, uma vez que o filme estava no seu auge e atraía principalmente o público mais jovem. “Quando passou na televisão foi alucinante, a gente comentava que ia passar na Tela Quente e todo mundo via, era um acontecimento! Hoje em dia com várias opções de canais e de mídias é menos comum isso. Eu adorava o filme!”, lembra Manolo Rey.

“Obviamente eu queria ver o filme, assim como quando fiz alguns para o cinema eu queria ir ao cinema! Os Goonies foi um filme que a gente ficou esperando e quando passou foi aquele boom!”, comenta Peterson Adriano.

Voucher de Peterson Adriano, comprovando a data da dublagem.

O Elenco Jovem de Vozes.


Para dar voz a Mikey Walsh (Sean Astin) foi escolhido o ator Oberdan Junior, que na ocasião estava dedicado intensamente à dublagem, com importantes papeis principalmente em desenhos animados. Sua última aparição em frente a telinha naquela época tinha sido na minissérie Memórias de um Gigolô, mas era mais lembrado pelo grande público como o Xande da telenovela A Gata Comeu, lançada no mesmo ano do filme.

Oberdan afastou-se da dublagem, hoje trabalha com roteiros, mas 29 anos depois da dublagem voltou a emprestar a voz a Sean Astin. “Não se trata de uma volta a dublagem, foi uma homenagem aos anos 80. O Philippe Maia me chamou para fazer o ator em Stranger Things”.

Um dos personagens mais engraçados do filme é o “Gordo” (Jeff Cohen) e da Matta queria uma voz mais infantilizada, escolheu assim Peterson Adriano, que na ocasião estava com 12 anos idade. Ele faz um trabalho inesquecível ao emprestar a voz a Cohen, tanto que logo em seguida pegou seu primeiro protagonista de destaque o Macaulay Culkin (Kevin) em Esqueceram de Mim.

Peterson recorda: “Eu me lembro que tive muita dificuldade de fazer a cena da mão no liquidificador. O personagem falava muito rápido e no primeiro dia que tentamos fazer aquela cena não consegui. Essa cena ficou para o segundo dia.”, Peterson recorda que no dia seguinte ficou tentando encontrar uma forma de encaixar palavras e a cena finalmente saiu. Outra dificuldade enfrentada pelo jovem dublador foi que as gravações eram de manhã e ele estava em época de provas, assim, ele ia pra escola mais cedo, fazia as provas antes da entrada dos alunos e ia pro estúdio em seguida.

“Bocão” Devereaux (Corey Feldman) recebeu a voz Danton Mello, irmão mais novo de Selton que na época do lançamento do filme nos cinemas também estava na telenovela A Gata Comeu, na ocasião estreando na televisão ao fazer o personagem Cuca. Quando dublou Os Goonies, Danton tinha acabado de fazer a novela Tieta, onde era o personagem Peto.

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Manolo Rey estava começando na dublagem, tinha feito pequenos papeis quando foi escalado para fazer o Dado Wang (Richard). “Eu era bem novo, tinha 23 anos, e eu fazia muito vozes de jovens mais do que minha idade mesmo.” Impossível esquecer o personagem às voltas com suas engenhocas, sendo interpretado por Manolo.

Já o ator Selton Mello emprestou a voz ao personagem Brand (Josh Brolin). Tinha acabado de fazer cinema, trabalhando no filme Uma Escola Atrapalhada, onde interpretou Renan. Na televisão Selton só voltaria a aparecer em 1992 fazendo o personagem Bruno em Pedra Sobre Pedra. A partir de então ele seguiu atuando mais em frente às câmeras e dublando esporadicamente.

Do elenco de jovens as mais experientes na bancada eram Miriam Ficher (iniciou em 1977) e Marisa Leal (começou a dublar em 1980), elas fizeram as duas mocinhas Andy e Stef.

A Elite da Herbert Richers.


O restante do elenco é composto apenas por grandes nomes da dublagem da época, vozes bem atuantes na Herbert Richers e que costumeiramente emprestavam suas vozes aos protagonistas.

Nelly Amaral, faz uma perfeita Mama Fratelli (Anne Ramsey), assustadora rabugenta sem deixar de ser engraçada como todo vilão de produção infantil precisa ser.

Os irmãos Fratelli receberam vozes recentes na dublagem. Marcus Jardym, com apenas um ano atuando na área faz com eficiência o ator Joe Pantoliano (Francis Fratelli), enquanto Robert Davi (Jake Fratelli) recebeu a voz de Alexandre Lippiani, que naquele ano tinha atuado em frente às câmeras em três novelas (Boca do Lixo, Lua Cheia de Amor e Pantanal). Lippiani faleceu sete anos depois vítima de um acidente de carro.

Porém o destaque dos Fratelli fica por conta da dublagem do personagem Sloth (John Matuszak). O dublador Hélio Ribeiro ficou com o papel e transforma sua voz para um timbre grave e abobalhado ficando quase irreconhecível. São poucas falas no filmes, mas bem realizadas o suficiente para ficar em nossa memória afetiva.

Selma Lopes (Lupe Ontiveros) é a voz de Rosalita, já o dublador Paulo Flores proporciona o vozeirão a Irving Walsh (Keith Walker), Francisco José, Isis Koschdoski, Hércules Franco e Newton Martins também estão na produção, ajudando a rechear esse trabalho com grandes intérpretes.

 

Elenco Principal de Dublagem:


Mikey Walsh
(Sean Astin)
Oberdan Júnior

Brand Walsh
(Josh Brolin)
Selton Mello

“Gordo” Cohen
(Jeff Cohen)
Peterson Adriano

“Bocão” Devereaux
(Corey Feldman)
Danton Mello

Andy Carmichael
(Kerri Green)
Marisa Leal

Stef Steinbrenner
(Martha Plimpton)
Miriam Ficher

“Dado” Wang
(Jonathan Ke Quan)
Manolo Rey

Jake Fratelli
(Robert Davi)
Alexandre Lippiani

Sloth
(John Matuszak)
Hélio Ribeiro

Francis Fratelli
(Joe Pantoliano)
Marcus Jardym

Mama Fratelli
(Anne Ramsey)
Nelly Amaral

Restante do Elenco de Dublagem:

Selma Lopes: Lupe Ontiveros (Rosalita)
Paulo Flores: Keith Walker (Irving Walsh)
Francisco José: Curt Hanson (Elgin Perkins)
Hércules Franco: Steve Antin (Troy Perkins)
Isis Koschdoski: Mary Ellen Trainor (Harriet Walsh)
Newton Martins: Bill Bradley (Bill)
Jorge Vasconcellos: Gene Ross (Gene)
Paulo Pinheiro: Max Segar (Max)
Newton da Matta: Newt Arnold (Newton)
Paulo Pinheiro: Nick McLean (Pai do Bocão)
Carlos Seidl: Paul Tuerpe (Xerife)
Ayrton Cardoso: George Robotham (Guarda)
Newton Martins: Jack O’Leary (Repórter 1)
Newton da Matta: Patrick Cameron (Repórter 2)
Isaac Schneider: Orwin C. Harvey (Tenista)
Isaac Schneider: Richard Donner (Policial)

Izaías Correia
Izaías Correia
Professor, roteirista e web-designer, responsável pelo site InfanTv. Também é pesquisador da dublagem brasileira.

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