Quando três solteirões nova-iorquinos se veem às voltas com fraldas, mamadeiras e uma bebê deixada à porta, nasce uma das comédias mais carismáticas dos anos 80 — e uma dublagem brasileira que fez história.
Quando três homens solteiros e bem-sucedidos trocam coquetéis por mamadeiras, algo muito fora do script da vida noturna está prestes a acontecer. Três Solteirões e um Bebê (Three Men and a Baby), lançado em 1987, é mais que uma comédia pastelona dos anos 80 — é uma farsa encantadora sobre responsabilidade, masculinidade e o caos maravilhosamente humano de cuidar de um bebê que aparece, literalmente, na porta de casa.
No Brasil o filme foi muito bem aceito pelo público de televisão, principalmente por ter vindo com uma dublagem muito bem cuidada, realizada pela Herbert Richers.

Hollywood Adota um Bebê Francês
O filme é, na verdade, um remake de uma produção francesa de 1985 chamada Trois Hommes et un Couffin (“Três Homens e um Berço”), que já havia feito sucesso na Europa com sua mistura de comédia física e ternura desconcertante. Hollywood, é claro, olhou para o berço e viu ouro. A adaptação americana ficou a cargo de Leonard Nimoy — sim, o eterno Spock de Jornada nas Estrelas — que, surpreendendo muitos, demonstrou um tato cômico e sensível atrás das câmeras.
Produzido pela Touchstone Pictures (um selo da Disney com liberdade para filmes menos “família-perfeita”), Três Solteirões e um Bebê se tornou o filme de maior bilheteria dos Estados Unidos em 1987. Sim, superando blockbusters como Robocop e Os Intocáveis. A paternidade vendeu. E muito.
Fraldas, Frascos e Foras-da-Lei
Peter (Tom Selleck), Michael (Steve Guttenberg) e Jack (Ted Danson) são três amigos que dividem um apartamento de luxo em Nova York. Peter é arquiteto, Michael é cartunista e Jack é ator — ou seja, são o típico trio de solteiros urbanos dos anos 80: charmosos, despreocupados e com medo de qualquer coisa que envolva compromisso.
Mas tudo muda quando, um dia, uma cesta aparece na porta. Dentro, uma bebê. Sem manual de instruções, sem fraldas estocadas, sem qualquer preparo emocional. Jack, o pai biológico, está fora do país filmando um comercial e Peter e Michael acabam tendo que lidar sozinhos com a pequena Mary — cujas necessidades imediatas são: comida, colo, e alguém para limpar o que quer que esteja explodindo naquela fralda.
Ah, e como se isso já não fosse o suficiente, um subenredo insano envolve tráfico de drogas e criminosos que confundem a bebê com um pacote de heroína. Sim, esse filme tem isso também. O que poderia ser um caos, surpreendentemente funciona, dando um tom de suspense cartunesco à trama.
A Fórmula Que Levou Multidões ao Cinema
O que torna o filme tão interessante, mesmo décadas depois, é sua forma leve porém corajosa de repensar o papel do homem na criação dos filhos. Num tempo em que a paternidade era ainda amplamente vista como uma função acessória (ou, no mínimo, atrapalhada), Três Solteirões e um Bebê propõe que homens podem — e devem — ser figuras cuidadoras, afetivas, presentes. Ou seja, abrir mão da tão comemorada independência em favor do amor paterno.
Isso sem virar panfleto, sem moralismo, sem pedir desculpas por ser engraçado. A transformação dos personagens não vem com grandes discursos, mas com o simples gesto de saber como aquecer uma mamadeira ou cantarolar uma canção de ninar improvisada.
O Filme chega ao Brasil
No Brasil, Três Solteirões e um Bebê chegou primeiro às telonas em 1988 e foi um megassucesso de locação em VHS, mas sua consagração popular veio mesmo com a estreia na televisão. Foi numa noite de sábado, 19 de maio de 1990, às 21h30, que o filme foi exibido pela primeira vez na TV Globo, no tradicional Supercine — faixa que, naquela época, era uma verdadeira vitrine para os grandes sucessos do cinema internacional. A recepção foi calorosa: pais riram, filhos gargalharam juntos, e se encantaram com a história cheia de afeto que veio dublada em horário nobre.
Logo depois, o longa passou a figurar com frequência na programação da emissora, especialmente na Sessão da Tarde, onde virou praticamente sinônimo de “comédia para todas as idades”.
A Cara Brasileira dos Solteirões
Se o trio de galãs já funcionava muito bem em inglês, foi na versão dublada que Três Solteirões e um Bebê conquistou de vez o coração dos brasileiros. A responsabilidade coube ao estúdio Herbert Richers, sinônimo de dublagem clássica nos anos 80 e 90.
A dublagem chegou na televisão aberta com uma rica performance dos dubladores que elevou a comédia a outro patamar, tornando as piadas mais acessíveis, os diálogos mais íntimos e os personagens ainda mais carismáticos.
No papel do arquiteto charmoso Peter Mitchell (Tom Selleck), o vozeirão maduro e firme de Hélio Ribeiro trouxe autoridade e doçura na medida certa. Selleck, naquele momento, havia recebido a voz de Francisco MIllani na série Magnum, num trabalho que serviu de forte identificação entre cara e voz, mas com Ribeiro, numa performance impecável, ninguém levou isso em consideração.
Já o cartunista brincalhão Michael Kellam (Steve Guttenberg) ganhou vida com a energia simpática de Mário Jorge Andrade. O dublador com toda aquela ginga, consegue fazer graça apenas com sua entonação despojada e fazendo Guttemberg, acerta em cheio.
Enquanto isso, o vaidoso e atrapalhado Jack Holden (Ted Danson) foi dublado com precisão irônica por Eduardo Borgerth. O dublador estava iniciando no setor, mas já dominava a técnica com maestria e acabou entregando um convincente Jack.
A atriz Nancy Travis, como a mãe biológica Sylvia, recebeu a voz delicada e expressiva de Marisa Leal, e Sheila Dorfman emprestou sua sofisticação à personagem Rebecca. André Luiz Chapéu deu tons ásperos e cômicos ao Detetive Melkowitz, enquanto os veteranos Sônia Ferreira, Maria Helena Pader e José Santa Cruz enriqueceram os papéis secundários com talento veterano.
Com direção sólida, sincronia impecável e uma pitada de malemolência carioca, a dublagem de Três Solteirões e um Bebê é uma aula de como adaptar sem perder o espírito original — e, às vezes, até melhorando a experiência.
Hélio Ribeiro, relembrou com carinho a experiência de dublar Três Solteirões e um Bebê. Segundo ele, o estúdio Herbert Richers concedeu à equipe total liberdade para improvisar e adaptar o texto, o que permitiu que o humor soasse mais natural e adequado ao público brasileiro. “Tivemos total liberdade pra improvisar e adaptar o texto”, afirmou Hélio, destacando que essa flexibilidade foi essencial para criar o tom leve e divertido que marcou a versão nacional.r

Três Dubladores e Um Trabalho Afinado
Hélio Ribeiro relembrou que, ao contrário do que ocorre com frequência hoje, as gravações naquela época eram feitas com os dubladores juntos em estúdio, o que favorecia uma troca criativa mais rica e espontânea. “Fazíamos juntos e a troca de ideias foi fundamental”, comentou. Dividir a bancada com Mário Jorge Andrade e Eduardo Borgerth foi, segundo ele, mais do que um trabalho técnico: foi um momento de amizade e sinergia artística.
Na cena em que Tom Selleck, Steve Guttenberg e Ted Danson cantam “Goodnight Sweetheart, Goodnight” (gravada por The Spaniels) fazendo uma cappella improvisada, o filme apresenta um momento de ternura inesperada e cômica que ficou marcado na memória de quem o viu, principalmente pelo trabalho caprichado da dublagem.
Exaustos e desajeitados, os três protagonistas se reúnem ao redor do berço e tentam fazer a pequena Mary dormir. A imagem dos três marmanjos, visivelmente deslocados mas profundamente tocados pela presença daquela criança, resume com perfeição o coração do filme: a transformação silenciosa que o afeto impõe. Para Hélio Ribeiro, que dublou Peter, esse trecho foi especialmente marcante. “Aquela cena em que cantamos pra criança dormir foi muito especial”, relembra. Na versão brasileira, o momento ganhou ainda mais ternura com a entrega vocal dos dubladores, que souberam transmitir toda a vulnerabilidade e o amor nascente daqueles pais improvisados — sem precisar dizer uma única piada.
Eles mudam a letra como um recado carinhoso com Hélio fazendo a primeira voz e o coro sendo reforçado por Mário Jorge e Eduardo Borgerth: “Boa noite, gatinha, você vai dormir! Tutudi dudu. Odeio partir mas eu vou dizer. Boa noite, gatinha! Já são três horas da manhã, Baby, não posso me aguentar… então eu volto amanhã, pra ver você namorar, minha gatinha. Tutudi…Tutudi…Tutudi…“.
Um Berço para a Comédia Familiar Moderna
Três Solteirões e um Bebê não foi apenas um sucesso de bilheteria. Foi um marco. Um daqueles filmes que capturam o espírito de uma década e o embalam com humor, afeto e um inesperado toque de crítica social. Ao colocar três homens — ícones da liberdade, da vaidade e da despreocupação — no papel de cuidadores frágeis e desastrados, o filme brinca com os estereótipos masculinos da época e, sutilmente, os desmonta.
O longa gerou uma continuação, Três Solteirões e uma Pequena Dama (1990), que conservou todo o elenco de vozes principais e, por muitos anos, Hollywood ensaiou remakes e até uma versão com elenco afro-americano, mas nenhuma proposta chegou a ser realizada. Ainda assim, o impacto permanece: em toda comédia onde homens despreparados precisam cuidar de crianças, há um pouco de Peter, Michael e Jack no DNA.
E quanto à famosa lenda do “fantasma do menino atrás da cortina”? Pode ter sido apenas um cartaz de papelão, mas simboliza perfeitamente o lugar mítico que o filme ocupa na cultura pop: uma história leve, acessível, divertida — e que, mesmo despretensiosa, deixou marcas duradouras no coração de uma geração.
Se nos Estados Unidos o charme do trio estava no entrosamento entre Selleck, Guttenberg e Danson, no Brasil essa mágica se repetiu — e talvez até se ampliou — graças ao talento e sintonia dos dubladores Hélio Ribeiro, Mário Jorge Andrade e Eduardo Borgerth. Juntos, eles fizeram mais do que traduzir falas: deram voz e alma brasileiras aos solteirões nova-iorquinos.
A química entre os três, dividindo a bancada, é palpável em cada diálogo, cada troca de piada, cada suspiro de frustração ou de ternura. É como se já fossem amigos de longa data. A naturalidade com que os personagens conversam entre si só reforça a ilusão perfeita da convivência — algo que poucos trabalhos de dublagem alcançam com tamanha precisão.
É essa dublagem que ecoa na memória de quem viu o filme nas tardes da Globo ou nos streamings de hoje. Uma dublagem que virou referência, que emocionou e divertiu gerações, e que segue sendo um exemplo brilhante de como a versão brasileira pode ser tão icônica quanto o original.








