Pesquisador, advogado e apaixonado pela cultura geek, Carlos Amorim transformou sua habilidade única de reconhecer vozes em um trabalho histórico de preservação da dublagem brasileira.
Nascido em Belém (PA) nos anos 1970, Carlos Amorim cresceu em uma casa onde a cultura não era só passatempo, mas rotina. Os quadrinhos do “Fantasma”, que seu pai folheava religiosamente, foram o primeiro portal para mundos de heróis, vilões e narrativas que ultrapassavam fronteiras. A televisão, ainda em preto e branco, foi outra escola: nas reprises de séries e filmes antigos, ele começou a notar um detalhe que passava despercebido para todos ao seu redor — as vozes.
Não eram apenas falas soltas, mas timbres que se repetiam, atores que “ressuscitavam” em outros personagens, vozes que atravessavam produções. Era como se o garoto tivesse desenvolvido um sexto sentido auditivo. Em 1977, ao ler uma reportagem publicada no jornal O Liberal (reproduzida de O Globo), o mistério ganhou nome: dublagem. Mais do que isso, ele compreendeu que havia direção, interpretação e um processo criativo escondido atrás da tela. Para Carlos, aquele foi o momento em que o invisível se tornou arte.
A partir dali, ele começou uma caçada que nunca mais terminou. Se a maioria dos espectadores via personagens, Carlos ouvia artistas. E sua memória auditiva tornou-se uma biblioteca viva de vozes. Com um índice de acerto impressionante — 99% de confirmações vindas de fontes jornalísticas ou dos próprios envolvidos nas dublagens —, Amorim se consolidou como um detetive cultural, alguém capaz de iluminar o que estava condenado ao esquecimento.
Fanzines, Encontros e a Construção de um Universo.
Nos anos 1980, quando o acesso à informação era escasso e a internet ainda não havia democratizado o conhecimento, Amorim encontrou nas revistas especializadas e nos fanzines uma ponte para alimentar sua curiosidade insaciável. Ao assinar o histórico ENPE – E No Próximo Episódio, em 1987, mergulhou em um espaço onde a dublagem começava a ser tratada como um assunto sério. Ali, ele não apenas se formou como leitor, mas mais tarde se tornaria colaborador, participando do movimento que deu voz a uma geração de fãs.
Essa inquietação se expandiu em 1993, quando ajudou a fundar a Estação Gênesis, uma associação cultural que durante uma década foi palco de eventos em Belém, muito antes do “boom” das convenções geek no Brasil. Era um trabalho quase artesanal, mas de impacto profundo: reunir fãs, discutir cultura pop, criar fanzines como o Diário da Estação e transformar o consumo individual em comunidade.
Paralelamente, Amorim passou a colaborar com revistas e grupos especializados — da TV Séries de Fernanda Furquim ao Relatório da Situação, do Ceará. Ele sempre esteve onde a informação sobre dublagem precisava ser organizada, onde a memória coletiva corria o risco de se perder. Não era sobre fama, mas sobre missão: resgatar histórias e registrar vozes antes que caíssem no esquecimento.
Do CineTvNews ao Futuro da Memória.
Em 2009, a trajetória encontrou um novo palco: o CineTvNews, projeto que nasceu como programa de web rádio e se expandiu para blog, página no Facebook, YouTube e podcast. Na Rádio Sintonia FM, ele transformou sua paixão em ondas sonoras, levando discussões sobre cinema, quadrinhos, séries e, claro, dublagem, para um público cada vez maior.
Hoje, Amorim segue ativo em múltiplas frentes. Como colaborador do site DB, ele atua para o levantamento histórico de elencos de dublagem, sobretudo de produções antigas que jamais tiveram reconhecimento oficial. Paralelamente, continua cobrindo eventos em Belém, registrando a cena geek local e levando essa energia para a internet.
Sua figura é, ao mesmo tempo, de pesquisador, ativista cultural e narrador apaixonado. Um homem que não apenas assiste a filmes e séries, mas escuta cada detalhe, atento ao sopro criativo por trás das vozes. Enquanto muitos enxergam a dublagem como algo “apenas técnico”, Amorim insiste em revelá-la como arte. Sua trajetória mostra que preservar essas vozes é preservar parte da identidade da cultura pop brasileira.
E talvez seja esse o maior legado de Carlos Amorim: ensinar que a dublagem não é só tradução, mas memória, emoção e história. Que cada voz, mesmo invisível, merece ser ouvida.








