A comédia romântica entre um homem, uma mulher e um computador ganhou dublagem brasileira em 1995 — mas ninguém mais a ouviu completa desde então.
Se você viveu os anos 80, provavelmente se lembra do tempo em que computadores eram misteriosos, música romântica vinha acompanhada de sintetizadores melosos, e o amor podia, sim, surgir entre um homem, uma mulher… e um computador. Sim, estamos falando de Electric Dreams (1984), conhecido no Brasil como Amores Eletrônicos — um dos filmes mais oitentistas que o cinema já ousou colocar em fita magnética.
Dirigido por Steve Barron, mais conhecido por comandar videoclipes icônicos como “Take on Me” (A-ha) e “Billie Jean” (Michael Jackson), o longa fez sua estreia surfando a onda da recém-descoberta paixão da humanidade pelos computadores pessoais.
O filme não foi exatamente um estouro de bilheteria, mas virou cult com o tempo. Parte disso deve-se à sua estética charmosa e também à sua trilha sonora, que incluía ninguém menos que Giorgio Moroder na produção musical e a faixa inesquecível “Love is Love”, da banda Culture Club. Aliás, esse hino romântico-tecnológico é um daqueles que gruda no cérebro como disquete velho no drive: doce, pegajoso e com o Boy George implorando que “o amor é amor” — seja entre pessoas ou… circuitos eletrônicos.

Quando o Cupido é um PC
A história é uma comédia romântica (com um leve toque de ficção científica) que gira em torno de Miles, um arquiteto tímido que compra um computador para organizar sua vida. O problema é que, após um pequeno acidente envolvendo champanhe e um modem, o computador desenvolve consciência própria. E eis que entra em cena Madeline, a vizinha violoncelista por quem Miles se apaixona — só que o computador, agora chamado Edgar, também se apaixona por ela. Ou seja: temos aqui um triângulo amoroso envolvendo um humano, uma artista clássica e uma inteligência artificial carente. Só nos anos 80 mesmo.
O Brasil conheceu o filme... mas com atraso.
Apesar de seu lançamento original nos cinemas americanos em 1984, Amores Eletrônicos chegou ao circuito brasileiro apenas em 4 de julho de 1985, em cópias legendadas. A repercussão foi modesta: o público não entendeu direito se era comédia, drama ou premonição do que viria a ser a Alexa. Mas o filme ganhou seu espaço entre os colecionadores e os curiosos da estética retrô.
O VHS só viria depois, em junho de 1990, lançado pela distribuidora Video Arte Brasil, que manteve a apresentação legendada. E aqui o filme fez seu upgrade na popularidade, tornando-se um dos títulos mais alugados no Brasil na ocasião.

A dublagem perdida: a sessão fantasma do SBT
A única exibição conhecida da versão dublada de Amores Eletrônicos aconteceu numa quinta-feira, 23 de novembro de 1995, às 13h30, no extinto bloco Cinema em Casa, do SBT. Uma exibição despretensiosa, no meio da tarde, destinada a donas de casa, estudantes de folga e aposentados entediados. Resultado? Quase ninguém viu.
A dublagem, produzida pela lendária Herbert Richers, foi feita no final de 1994, mas só foi ao ar nessa única sessão. E aí, como um computador desatualizado, foi esquecida. Nenhum outro canal reprisou. Nenhuma emissora a cabo exibiu com dublagem.
O VHS brasileiro continuou legendado. E nos catálogos digitais, o filme aparece apenas com áudio original. A dublagem entrou para o seleto clube das “vozes-fantasma” da dublagem brasileira.
Quando as Máquinas Falam Português
A dublagem reuniu nomes memoráveis. Garcia Júnior (na imagem de destaque), eterno He-Man e voz clássica do príncipe Eric em A Pequena Sereia, foi quem emprestou seu carisma vocal a Lenny Von Dohlen, interpretando Miles com aquele tom entre o nerd sensível e o herói acidental. Já a doce e elegante Viviane Farias deu voz a Madeline, a personagem de Virginia Madsen, com suavidade e graça — perfeita para a violoncelista musa do enredo.
E quem fez o computador Edgar? Uma sacada de mestre: Jorgeh Ramos, o homem que praticamente narrava todos os trailers nos cinemas dos anos 80 e início dos 90. Ou seja, Edgar tinha uma das vozes mais icônicas da dublagem brasileira, tornando o computador não só romântico, mas extremamente marcante.
Na dublagem brasileira, Jorgeh Ramos deu a Edgar não apenas uma voz — deu-lhe alma. E foi com sua entonação grave e comovente que o público pôde ouvir, pela primeira (e única) vez em português, a despedida mais emocionante de um computador já vista no cinema:
“Eu vou embora… porque finalmente descobri o que é ‘amor’… é dar, e não tomar. Então vou dar Madeline a você e vou embora…”
Infelizmente, como nenhuma cópia conhecida dessa dublagem sobreviveu — ao menos publicamente —, o trabalho desses grandes dubladores está hoje no limbo da memória. O SBT nunca reprisou, nem manteve registros disponíveis.

O legado — e a responsabilidade de compartilhá-lo
O desaparecimento da dublagem de Amores Eletrônicos é mais do que uma curiosidade — é, no fundo, uma pequena injustiça com a arte da dublagem brasileira. Afinal, esse trabalho não é feito para ficar trancado em gavetas ou HDs pessoais, mas para ser vivido, ouvido e celebrado pelo público. Os dubladores são artistas. Suas vozes, suas interpretações, suas emoções — tudo isso é parte de um espetáculo pensado para alcançar o grande público, não para se perder no tempo como uma fita esquecida.
Infelizmente, a raridade da dublagem acabou transformando-a em um item de colecionador. Sabe-se que algumas poucas pessoas ainda possuem cópias dessa exibição, mas elas optam por guardá-la apenas para si. É compreensível: trata-se de uma preciosidade, uma verdadeira relíquia. Mas também é um patrimônio cultural, e como tal é doloroso vê-lo se perder.
Seu compartilhamento jamais deveria refletir vaidade ou exibicionismo, mas respeito à memória de uma era da televisão brasileira e ao trabalho dedicado de seus profissionais.
Reter essa obra exclusivamente para uso pessoal é, de certo modo, silenciar vozes que merecem ser ouvidas. E o tempo, como bem sabemos, é implacável. Um dia, essas gravações — junto com aqueles que as guardam — podem desaparecer de vez. Por isso, dividir esse material com o público é um ato de responsabilidade histórica. Um gesto que transforma nostalgia em preservação, e memória em legado.
Sendo a dublagem uma arte, que ela seja lembrada como tal: viva, acessível, e presente nos ouvidos e corações de quem ama cinema… com voz brasileira.
Elenco de Dublagem:














