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A Redescoberta de Pedro Américo: Uma Voz Esquecida da Dublagem dos Anos 80.

A trajetória de um ator multifacetado que deixou sua marca na dublagem de séries japonesas, mas teve sua identidade vocal encoberta pelo tempo.

Início da Investigação: Uma Voz Incomum em Jiban

É com grande satisfação que trago mais uma investigação que realizei para descobrir um dublador envolvido com as séries japonesas exibidas no Brasil nos anos 80. A descoberta que fiz em 2016 foi do ator e comediante Pedro Américo.

As pesquisas em torno dessa voz começaram em 2009, quando revi a série Policial de Aço Jiban, dublada nos tradicionais estúdios da Álamo sob direção de Nair Silva. Inicialmente dividida em dois lotes — o primeiro no segundo semestre de 1989 e o segundo no primeiro semestre de 1990 — a série foi exibida pela Rede Manchete e posteriormente lançada em fitas VHS pela distribuidora Top Tape.

Nos episódios 30 (“O Misterioso Ataque ao Ator”) e 31 (“A Batalha Ninja”), surgem dois Bionóides com uma voz distinta das mais comuns naquele período. Era evidente que não se tratava de um iniciante, mas tampouco era uma interpretação facilmente associável a outros trabalhos da época. Ainda assim, percebi que se tratava de alguém experiente, o que despertou meu interesse.

Kabukinóide em cena: interpretação que escondeu por décadas a voz experiente de Pedro Américo.

Kabukinóide e Shinobinóide: Um Desafio Sonoro.

O monstro Kabukinóide, inspirado no tradicional teatro Kabuki japonês, tinha uma entonação cômica e afetada. O estilo teatral dificultava a pesquisa: identificar um dublador por meio de um falsete é praticamente impossível. Em um momento do episódio, o monstro se transforma em um ser humano e usa uma voz “padrão”, mas ainda assim, isso não foi suficiente para identificá-lo com segurança.

No episódio seguinte, o monstro Shinobinóide possuía a mesma voz-base, porém mais rasgada — criando um novo padrão vocal, igualmente difícil de rastrear. Esse personagem, ao contrário do anterior, não se transformava, o que impedia a coleta de mais material sonoro com a voz original do ator. Sabia, então, que essa seria uma empreitada árdua.

Frustrações e Um Nome Inusitado.

Como de costume, entrei em contato com a diretora de dublagem e com diversos dubladores que estavam ativos na época. Ninguém, no entanto, conseguia ligar a voz à pessoa. Após semanas de pesquisa sem sucesso, arquivei temporariamente o caso — sem desistir dele.

Cinco anos depois, em uma publicação do pesquisador Mauro Eduardo Lima no Facebook, ele mencionava vários dubladores que já haviam falecido. Conhecia todos os nomes listados — exceto um: Pedro Américo. Imediatamente entrei em contato via inbox e obtive uma resposta que reacendeu a investigação.

Com essa pista, voltei à pesquisa. Descobri que Pedro Américo havia integrado a equipe do programa Bozo, ao lado de nomes como Leda Figueiró, Zayra Zordan, Marcos Lander e Fábio Villalonga. Os dois primeiros já haviam falecido, então contatei os demais. No entanto, as informações eram desencontradas, e não consegui confirmar qual das inúmeras vozes em meu acervo pertencia ao Américo.

Shinobinóide: voz misteriosa que marcou presença em Jiban, reforçando o enigma que só anos depois seria desvendado.

A Conexão Com a Família.

Certo dia, por acaso, um vídeo compartilhado no Facebook mostrava um trecho do programa do Bozo, em que apareciam Villalonga, o personagem Gibi e outro ator. A dona da postagem se referia ao terceiro homem do vídeo como “pai”. Era a oportunidade que eu esperava.

Entrei em contato com Julia Oliveira, e iniciamos uma conversa. Curiosamente, ela também havia feito um curso de dublagem na Álamo nos anos 80, com Líbero Miguel e Ézio Ramos, e sua mãe havia trabalhado na Odil Fonobrasil. A veia artística estava presente na família. Infelizmente, até hoje, não consegui identificar a voz de Julia em produções da época.

Quem Foi Pedro Américo?

Pedro Américo Rodrigues Ferreira nasceu no Ceará, em 1950, onde cursou a Universidade Federal de Artes Cênicas e integrou a Companhia de Artes Dramáticas e Comédias. Na década de 1980, mudou-se para o Rio de Janeiro para trabalhar com Os Trapalhões, e depois se estabeleceu em São Paulo, tornando-se um dos primeiros funcionários contratados da emissora de Silvio Santos. Além de ator, também era radialista.

Pedro faleceu em 14 de setembro de 1992, vítima de tuberculose agravada pelo tabagismo. Segundo sua filha, ele atuou em muitos trabalhos de dublagem — informação confirmada também por Mauro Eduardo —, o que ampliou o campo de busca para identificar mais atuações suas, especialmente nos anos 80.

Julia ainda relatou que seu pai dublou episódios da série Punky, a Levada da Breca, exibida pelo SBT. No entanto, a emissora retirou a série do ar antes que a participação de Pedro fosse exibida.

Quem Foi Pedro Américo?

A descoberta da identidade vocal de Pedro Américo é mais um passo importante na preservação da memória da dublagem brasileira. Trata-se de um artista talentoso, cuja voz emprestou vida a personagens marcantes e excêntricos, mesmo que por vezes em passagens breves.

O desafio de identificar vozes escondidas sob personagens caricatos ou distorções vocais é enorme, mas quando as peças se encaixam, a sensação de justiça histórica é recompensadora. A busca por outros trabalhos de Pedro continua, e sua voz, aos poucos, vai sendo resgatada do esquecimento.

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Ivan Betarelli
Ivan Betarelli é um historiador da dublagem de renome, responsável por ter trazido pra web grande parte das informações biográficas de alguns profissionais, além de imagens raras. É dono do blog Falando de Dublagem.

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