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Freddy em Português: As Vozes que Ecoam nos Pesadelos.

Duas vozes, duas eras e um mesmo pesadelo: a história das dublagens brasileiras que fizeram de Freddy Krueger um ícone do terror também em português..

Como Freddy Krueger Saiu dos Pesadelos de Wes Craven para o Imaginário Coletivo

Em 1984, o então ainda pouco conhecido Wes Craven deu vida a um dos maiores ícones do terror moderno: Freddy Krueger, o assassino dos sonhos. Criado para o filme A Nightmare on Elm Street, o vilão de chapéu surrado, blusa listrada em vermelho e verde e a temida luva com lâminas nos dedos não só reinventou o horror nos cinemas como também se tornou um símbolo definitivo do medo juvenil da década de 1980.

A produção, feita com baixo orçamento pela New Line Cinema — na época um estúdio quase falido — surpreendeu ao aliar criatividade, clima onírico e violência estilizada. Craven fundiu elementos de horror sobrenatural com simbolismo psicanalítico, construindo um vilão que matava as vítimas nos sonhos, afetando diretamente a realidade. A performance de Robert Englund no papel principal foi tão intensa que Freddy ultrapassou a tela e se tornou parte da cultura pop.

Com o sucesso inesperado, o filme deu origem a uma franquia multimilionária que renderia oito continuações, um crossover com Jason Voorhees (Freddy vs. Jason), brinquedos, HQs, videogames e até uma série de televisão (Freddy’s Nightmares). Mais do que um vilão, Freddy tornou-se uma espécie de mestre de cerimônias do terror americano, com frases sarcásticas, senso de humor sádico e uma presença hipnótica que o destacava de outros monstros silenciosos da época.

Chamada do filme em 1988 no SBT

Quando Freddy Invadiu a TV Brasileira e Assustou o Horário Nobre

A Hora do Pesadelo estreou nos cinemas brasileiros em 27 de novembro de 1986, exibido de forma legendada, e já cercado de expectativas por conta de sua fama internacional e do burburinho entre os fãs do gênero. Mas foi só dois anos depois, na televisão aberta, que o filme realmente explodiu no imaginário do grande público brasileiro.

Em 2 de dezembro de 1988, uma sexta-feira, o SBT exibiu o longa no programaCinema em Casa, às 21h30, apresentando a primeira dublagem brasileira. A chamada da emissora já deixava claro o impacto que o filme causava: “A Hora do Pesadelo – Um sucesso do cinema escolhido especialmente pra você!”. Era a chegada de Freddy Krueger dublado, agora pronto para invadir os pesadelos de toda uma geração de brasileiros mas falando em português.

Essa primeira dublagem foi feita pelo estúdio Elenco Produções Artísticas, de São Paulo, marcando o início da jornada de Freddy em português.

A Dublagem que Deu Sarcasmo e Terror a Freddy Krueger

A versão de 1988 dublada pela Elenco trouxe um time de vozes recheado de nomes importantes e performances memoráveis. A voz de Freddy Krueger foi interpretada por Mário Jorge Montini, que entregou uma atuação irônica, sádica e cheia de personalidade. Sua entonação alternava entre o deboche cruel e a ameaça constante, criando um personagem que se tornava tão marcante em português quanto no original inglês.

A protagonista Nancy, vivida por Heather Langenkamp, ganhou uma interpretação sensível e intensa de Cecília Lemes, reforçando o conflito interno da jovem atormentada por pesadelos e um passado familiar sombrio. Outros destaques foram:

Além da marcante presença vocal de Freddy, o elenco da dublagem original do SBT contou com Carlos Campanile como o rígido Tenente Thompson, Denise Simonetto na pele da assustada e trágica Tina, Fábio Villalonga como o impulsivo Rod e Eduardo Camarão emprestando sua voz ao então estreante Johnny Depp, no papel do jovem Glen.

A narração da chamada do filme ficou a cargo do icônico Felipe Di Nardo, emprestando sua voz poderosa e grave à atmosfera de suspense.

É impossível não notar como ela tem a cara dos anos 80: vozes teatrais, interpretações marcadas, uma estética sonora que remete imediatamente ao estilo televisivo da época. É como se a dublagem fosse parte da identidade estética do próprio filme, tornando-se inseparável da experiência nostálgica de quem assistiu pela primeira vez naquela noite de sexta-feira no SBT.

Freddy e Nancy: o pesadelo ganha forma quando o carrasco dos sonhos encontra sua adversária mais icônica — uma batalha entre medo e resistência que marcou o terror dos anos 80.

A Redublagem que Recriou Freddy e Seus Demônios para uma Nova Geração

Com a popularização do home video e o avanço dos formatos digitais, A Hora do Pesadelo ganhou uma nova dublagem em 2004, agora produzida pelo tradicional estúdio Herbert Richers, no Rio de Janeiro. A redublagem foi feita para o lançamento em DVD pela PlayArte, enquanto o SBT ainda seguia reprisando o filme com a dublagem original da Elenco. Inclusive, a emissora reexibiu o longa com a primeira dublagem em 12 de março de 2004, semanas antes do lançamento em home video.

Na Herbert Richers, Isaac Bardavid assumiu oficialmente o papel de Freddy, e sua performance se tornou a definitiva para novas gerações. Sua voz cavernosa, carregada de autoridade e ironia sombria, tornou-se um verdadeiro sinônimo do personagem. Bardavid já era uma lenda na dublagem por trabalhos como Esqueleto (He-Man) e o Juiz Claude Frollo (O Corcunda de Notre Dame). Aqui, ele conseguiu equilibrar o humor ácido de Freddy com a ameaça real que o personagem impõe. Anos mais tarde ficaria muito conhecido por fazer outro personagem de garras, o Wolverine.

A redublagem foi usada novamente no Blu-ray lançado em 20 de outubro de 2011 e passou a ser a versão padrão nas plataformas de streaming como Netflix e HBO Max, além de ser utilizada em reprises atuais até mesmo no próprio SBT. Com isso, a dublagem original da Elenco se tornou uma verdadeira joia cultuada pelos nostálgicos.

É curioso observar como as duas versões refletem perfeitamente suas épocas. A dublagem da Elenco tem o estilo mais teatral, vibrante, característico dos anos 80, enquanto a da Herbert Richers é mais sóbria, polida e adequada ao estilo de mixagem e narrativa dos anos 2000.

Com sua luva de lâminas e sorriso torto, Freddy Krueger não apenas assombra os sonhos — ele comanda o medo com sarcasmo e estilo macabro.

Quando o medo ganha voz

As dublagens brasileiras de A Hora do Pesadelo não são apenas uma tradução do filme original — e sim uma recriação artística que moldou a maneira como os brasileiros conheceram e temeram Freddy Krueger.

A performance de Mário Jorge Montini permanece como uma preciosidade da dublagem oitentista, trazendo à vida um Freddy histérico, cruel e sarcástico que marcou uma geração inteira que cresceu assistindo Cinema em Casa. Por outro lado, Isaac Bardavid, com sua voz precisa, grave e arrepiante, consolidou o personagem como um ícone moderno do horror dublado, sendo reverenciado por fãs e colegas de profissão.

Hoje, as duas versões coexistem em mundos diferentes: a dublagem da Elenco vive na memória afetiva de quem descobriu Freddy na TV aberta, enquanto a versão da Herbert Richers é a oficial nas mídias digitais, mantendo o pesadelo vivo para novas gerações.

No fim das contas, Freddy Krueger ganhou mais do que uma voz no Brasil. Ganhou duas — e ambas merecem estar para sempre gravadas na história da dublagem nacional.

PERSONAGEM - ATOR

ESTÚDIO ELENCO

HERBERT RICHERS

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Izaías Correia
Professor, roteirista e web-designer, responsável pelo site InfanTv. Também é pesquisador da dublagem brasileira.