Destaques Por Trás da Dublagem

Querida, Cheguei!: A Dublagem que Transformou A Família Dinossauro em Patrimônio Brasileiro

Como a dublagem brasileira transformou a Família Dinossauro em fenômeno cultural, criando vozes, bordões e identidades que atravessam gerações..

Poucas séries conseguem atravessar gerações, virar bordão de mesa de bar, ser lembrada em memes na internet e ainda carregar uma crítica social disfarçada de humor para toda a família. A Família Dinossauro (ou Dinosaurs, no original), é uma dessas raridades.

Produzida pela Jim Henson Productions e pela Disney, a série estreou nos Estados Unidos em 1991 e rapidamente se tornou um fenômeno mundial. No Brasil, desembarcou em abril de 1992, dentro do Xou da Xuxa, e nunca mais saiu da memória afetiva de quem viveu os anos 90.

Mas se a produção já era inovadora pelo uso de animatrônicos realistas, roteiro afiado e humor ácido, foi a dublagem brasileira que realmente fez da família Silva Sauro um patrimônio nacional. Afinal, sem ela, talvez Dino nunca tivesse gritado com tanto impacto nacional “Querida, cheguei!”, nem o Baby tivesse batido a frigideira ao som de “Não é a mamãe!” e nos feito ficar apaixonados por ele.

José Santa Cruz

Dino da Silva Sauro

Do sucesso global ao fenômeno brasileiro.

Quando estreou em abril de 1991, na rede americana ABC, A Família Dinossauro já nasceu como uma superprodução: criada por Michael Jacobs em parceria com a Jim Henson Productions e a Walt Disney Television, era exibida em horário nobre e vendida como uma atração capaz de divertir tanto crianças quanto adultos. A série logo foi distribuída para mais de 25 países, entre eles Austrália, Inglaterra e Portugal, onde chegou primeiro pela RTP1 e, mais tarde, foi reapresentada pelo Disney Channel.

O Brasil não demorou a entrar nessa lista. No dia 4 de maio de 1992, a Rede Globo lançou A Família Dinossauro dentro do Xou da Xuxa. Inicialmente, a ideia era simples: usar a novidade para reforçar a audiência matinal do programa, que já dava sinais de desgaste após anos de hegemonia. O que ninguém esperava era que a família Silva Sauro fosse “engolir” a própria Xuxa em termos de ibope. A série atingiu picos de 16 pontos, enquanto a Rainha dos Baixinhos oscilava entre 12 e 13 pontos. Em pouco tempo, Dino e Baby se tornaram os novos queridinhos das manhãs.

O sucesso foi tanto que, pouco mais de um mês depois, a Globo decidiu dar um espaço próprio para a série. A partir do dia 14 de junho de 1992, os episódios passaram a ser exibidos também aos domingos, às 13h25, numa estratégia ousada: colocar Família Dinossauro lado a lado com outro fenômeno importado, Os Simpsons. A Globo queria alavancar o “domingo em família” e encontrou em Dino Sauro o parceiro ideal para Homer Simpson.

Marisa Leal

Baby da Silva Sauro

Mas o apelo da série não se limitou à tela. O sucesso gerou uma onda de promoções e merchandising como poucas vezes se viu para um seriado estrangeiro. Uma das mais lembradas foi a da Rádio Cidade, que sorteava bonecos do Baby ao som de chamadas gravadas pela própria dubladora, Marisa Leal. O brinquedo virou febre e foi apontado nos jornais como um dos campeões de vendas no final de 1992. Logo, a Abril Vídeo lançou três fitas VHS, cada uma com seis episódios do clã pré-histórico, sempre com a dublagem brasileira que já havia se tornado parte essencial do sucesso.

Em 1993, a série ganhou ainda mais espaço na Globo ao ser incorporada ao TV Colosso, programa infantil que substituiu o Xou da Xuxa nas manhças da Globo. Nessa fase, o merchandising continuava intenso: chaveiros, camisetas, álbuns de figurinhas (estima-se que foram vendidos cerca de 40 milhões de envelopes) e até o LP Babymania, gravado pelos dubladores oficiais, transformaram a marca Família Dinossauro em um fenômeno de vendas.

Maria Helena Pader

Fran da Silva Sauro

A vida pós-Globo da Família Dinossauro.

Depois de anos na Globo, o seriado ganhou sobrevida em outras emissoras. No SBT, estreou em 1º de março de 2003, indo ao ar nas noites de sábado, às 21h, onde ficou até 2005 também em  outros dias e horários.

Em seguida, passou para a Bandeirantes, que lançou a atração em 30 de julho de 2007, às segundas-feiras, às 20h15. A estreia ocupou o lugar do esportivo Band Esporte Clube, retirado do ar após baixa audiência. A experiência durou pouco, com algumas pausas e retornos curtos ao longo do mesmo ano.

Já nos anos 2010, o saudosismo falou mais alto. Em agosto de 2014, a série voltou pela terceira vez à TV brasileira, dessa vez no Canal Viva, onde encontrou novamente seu público fiel. Exibida de segunda a sexta, às 11h da manhã, com reprise às 3h45, a atração resgatou não apenas a nostalgia dos adultos, mas também apresentou o Baby e seu “Não é a mamãe” a uma nova geração.

Assim, o que começou como uma aposta para reforçar um programa infantil transformou-se em um dos maiores sucessos internacionais de sua época e, no Brasil, em um verdadeiro fenômeno de cultura pop, atravessando décadas, emissoras e formatos sem perder a força. Grande parte desse sucesso, sem dúvida passou pela sua excelente dublagem.

As Vozes que Deram Vida à Família Dinossauro.

Se Família Dinossauro foi um sucesso global graças à genialidade de Jim Henson e Michael Jacobs, no Brasil o fenômeno só aconteceu de verdade porque os personagens pré-históricos ganharam sotaque, gírias e — acima de tudo — vozes inesquecíveis. A dublagem, realizada nos estúdios Herbert Richers, sob direção e tradução de Telmo de Avelar, é hoje lembrada como uma das melhores já feitas para a televisão.

Mais do que traduzir, a equipe encarregada da versão nacional abrasileirou os personagens. Earl Sinclair virou Dino da Silva Sauro, um sobrenome tão comum que qualquer um poderia ser vizinho dele. O filho Robbie virou Bob, mantendo o tom juvenil. A família ganhou bordões, trejeitos e uma identidade que fez com que Dino, Baby e companhia caíssem de vez no coração do público brasileiro.

Miriam Ficher

Charlene da Silva Sauro

A chegada do pai em casa só tinha graça porque vinha acompanhada do inesquecível “Querida, cheguei!”, dito com a entonação impecável de José Santa Cruz. Ele deu vida a Dino, o trabalhador atrapalhado, bruto e, ao mesmo tempo, um paizão de coração mole. Santa Cruz, também humorista da TV, conseguia transmitir o exagero e a comicidade de Dino com a mesma força que emprestava a personagens como o Rei Randor em He-Man ou Magneto em X-Men.

Se Dino era bronco, sua esposa era o equilíbrio da casa. Maria Helena Pader fez de Fran Sinclair uma figura doce e paciente, com a voz exata para lidar com o marido estabanado e os filhos barulhentos. Dubladora e atriz de novelas da Globo, Pader emprestou seu timbre sereno a personagens como Sarabi em O Rei Leão e a Cruela de Vil em 101 Dálmatas, além de ser a voz oficial de Anjelica Huston no Brasil.

Mas o coração da série estava no mascote. O Baby, que virou fenômeno instantâneo, ganhou voz na interpretação inconfundível de Marisa Leal. Foi ela quem criou o tom agudo, sapeca e irritantemente adorável que ecoava nos bordões “Não é a mamãe!”, “Precisa me amar!” e “De novo!”. Tanto sucesso fez com que a própria Marisa passasse a gravar chamadas para rádios e campanhas promocionais na voz do Baby. ela foi convidada para matérias jornalísticas e o que talvez seja o maior trabalho de sua carreira até hoje é lembrado por muitos.

A filha adolescente, Charlene, recebeu a voz de Miriam Ficher, dona de um timbre inconfundível que muitos descrevem como “voz de gatinha”. Ela soube dosar o tom entre a rebeldia adolescente e a doçura, compondo uma personagem vaidosa, engraçada e ao mesmo tempo próxima do público jovem da época. Já o primogênito, Bob, ficou a cargo de José Leonardo, especialista em papéis juvenis, que transmitiu ao personagem um ar contestador, sempre questionando a ordem estabelecida, mas sem perder a ingenuidade.

No trabalho, Dino tinha ao lado o amigo atrapalhado Roy, dublado por Roberto Macedo, que alternava entre a camaradagem e a comédia pura, e um chefe assustador, o terrível Sr. Richfield, com a voz grave e imponente de Paulo Flores, um dos grandes nomes da dublagem brasileira, falecido em 2003, mas eternizado nessa e em tantas outras interpretações. A família também contava com a presença da afiada Vovó Zilda, que na voz de Glória Ladany ganhava ainda mais sarcasmo e acidez, reforçando o equilíbrio perfeito de personalidades que a versão brasileira soube capturar.

José Leonardo

Bob da Silva Sauro

Tudo isso só foi possível pela visão de Telmo de Avelar, também tradutor da série, que entendeu desde o início que Família Dinossauro precisava falar a língua do brasileiro, não só no sentido literal, mas no cultural. Foi dele a decisão de criar sobrenomes nacionais, inserir gírias e adaptar piadas, sem medo de transformar. O resultado foi uma dublagem que não apenas traduziu, mas reinventou a série, tornando-a mais próxima, mais engraçada e, em muitos aspectos, até mais popular aqui do que em seu país de origem.

O sucesso foi tão duradouro que a dublagem original nunca precisou ser refeita, mesmo em reprises no SBT, Band e Viva. A única exceção foi em 2014, quando o Canal Viva exibiu o episódio inédito no Brasil “Uma Nova Planta”, considerado polêmico por abordar drogas em tom metafórico. Nesse caso, a Delart refez a versão, mas trouxe de volta os mesmos dubladores, garantindo continuidade.

No fim, pode-se dizer que Família Dinossauro sobreviveu ao tempo não apenas por seus roteiros ousados ou pelos bonecos impressionantes da Jim Henson, mas porque no Brasil encontrou vozes que a tornaram única. Sem José Santa Cruz, Maria Helena Pader, Marisa Leal, Miriam Ficher, José Leonardo e tantos outros, Dino não seria Dino, Baby não seria Baby e os bordões não ecoariam até hoje. Foi a dublagem brasileira que transformou uma boa série em um patrimônio cultural eterno, capaz de atravessar gerações.

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Izaías Correia
Professor, roteirista e web-designer, responsável pelo site InfanTv. Também é pesquisador da dublagem brasileira.

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