Uncategorized

Pinocchio

Pinóquio

DIREÇÃO DE DUBLAGEM:

João de Barro

ESTÚDIO DE DUBLAGEM:

Sonofilmes

MÍDIAS:

Televisão

Elenco Principal

Canções

Canções

Canções

Canções

Canções

  1. “Quando Se Pede à Uma Estrela”: Paulo Tapajós
  2. “Cabecinha de Madeira”: Batista Júnior
  3. “Sopra o Assobio”: Paulo Tapajós e Doraldo Gomes Thompson
  4. “Tra-la-la-la-la”: Almirante e Doraldo Gomes Thompson
  5. “Não há Cordas para Mim”: Heloísa Helena e Doraldo Gomes Thompson
  6. “Quando Se Pede à Uma Estrela”: Paulo Tabajós

A Dublagem

Em 2 de setembro de 1940, o boneco de madeira mais famoso do cinema ganhava vida também nos cinemas brasileiros. Pinóquio, a segunda grande animação dos estúdios de Walt Disney, conquistava o público com a mesma força de Branca de Neve e os Sete Anões — e, antes mesmo de sua estreia, já movimentava os bastidores da cultura e da indústria cinematográfica do país.

 

O início de uma epopeia de bastidores

Tudo começou em 16 de janeiro de 1940, quando o escritório da RKO Radio Pictures — distribuidora oficial da Disney na época — anunciou a vinda ao Rio de Janeiro de dois enviados diretos dos estúdios: Paul Stuart Buchanan, diretor do Departamento Estrangeiro da Disney, e Jack W. Cutting, engenheiro de som e veterano das produções em Burbank. A missão era clara: supervisionar a versão brasileira de Pinóquio e garantir que a adaptação em português mantivesse o charme e a delicadeza do original.

A escolha não foi por acaso. Dois anos antes, a dublagem nacional de Branca de Neve havia chamado atenção de Walt Disney pelo esmero e autenticidade, e o animador não hesitou em autorizar uma nova produção local — ao lado das versões em espanhol (gravada na Argentina) e sueca. A Segunda Guerra Mundial limitou as opções, e apenas essas três versões estrangeiras foram concluídas em 1940.

 

Chegada ao Brasil e os planos ousados

Cutting e Buchanan desembarcaram no Rio de Janeiro em 18 de fevereiro de 1940, vindos de Miami em um hidroavião da Pan American Airways. No mesmo dia, a RKO inaugurava sua temporada de estreias no país, com planos ambiciosos: exibir Pinóquio simultaneamente em sete capitais — São Paulo, Rio, Porto Alegre, Recife, Belo Horizonte, Salvador e Santos. O plano acabou não se concretizando integralmente, mas a ideia plantou as sementes de um lançamento nacional sem precedentes para a época.

Entre os nomes que tornaram essa operação possível estavam Luiz Severiano Ribeiro Júnior, dono de dezenas de salas de cinema, e Bruno Cheli, gerente da RKO no Brasil, que firmaram contrato histórico entre a distribuidora americana e a Companhia Brasileira de Cinema.

 

A dublagem brasileira: um feito artesanal

O trabalho de dublagem foi realizado pela Sonofilms, sob a supervisão do americano Wallace Downey. O roteiro foi traduzido e adaptado no Brasil pelo dramaturgo Joracy Camargo, membro da Academia Brasileira de Letras, com o auxílio de suas filhas Haydée e Hebe Camargo. Joracy cuidou para que os diálogos soassem genuinamente brasileiros, preservando o humor e a leveza do original.

As canções, por sua vez, foram adaptadas nos Estados Unidos por Zacarias Yaconelli, artista ítalo-brasileiro fluente em cinco idiomas, conhecido por ajudar Carmen Miranda a aprimorar seu inglês. A direção da dublagem ficou nas mãos do compositor Carlos Alberto Braga, o icônico João de Barro (Braguinha), enquanto Moacyr Fenelon comandou a parte técnica de som.

 

As vozes que deram vida ao conto

O jovem Doraldo Gomes Thompson, de apenas 12 anos — conhecido como Pinguinho, locutor esportivo mirim do rádio — foi escolhido para dar voz ao protagonista Pinóquio. Seu irmão, Dilmar Gomes Thompson, também participou, dublando o menino Alexandre, que se transforma em burrinho na Ilha dos Prazeres.

O papel de Gepeto coube ao ventríloquo Batista Júnior, pai das cantoras Linda e Dircinha Batista. O Grilo Falante foi dividido entre Mesquitinha (voz falada) e Paulo Tapajós (voz cantada). A Fada Azul ganhou o tom doce da atriz e cantora Zezé Fonseca, enquanto Heloísa Helena, futura dubladora da Malévola em A Bela Adormecida, interpretou todas as marionetes do espetáculo de Stromboli.

Entre os vilões, o lendário radialista Almirante (Henrique Foréis Domingues) dublou o trapaceiro João Honesto; Grande Otelo emprestou sua malandragem para o personagem Espoleta (chamado à época de Pavio de Vela); Edmundo Maia viveu o cocheiro que sequestra crianças; e o cantor lírico Lisandro Sergenti, do Teatro Municipal do Rio, deu voz ao imponente Stromboli.

 

Um processo de dublagem artesanal e criativo

A tecnologia da época exigia engenhosidade. As gravações não eram feitas acompanhando a imagem do filme, mas sincronizadas com discos de vinil que traziam o áudio original. Cada fala era marcada por três batidas no disco — um sistema que exigia precisão milimétrica dos dubladores. O áudio final era então enviado a Nova York, onde seria mixado e integrado à película em Technicolor.

Mesmo diante dessas limitações, o resultado surpreendeu os técnicos da Disney. Em cartas enviadas à Sonofilms, os americanos elogiaram especialmente as atuações de Almirante, Mesquitinha e Grande Otelo, consideradas até superiores às originais.

 

Lançamento histórico e promoção inédita

Em julho de 1940, a RKO anunciou oficialmente a estreia simultânea de Pinóquio no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre para 2 de setembro. O filme seria exibido em algumas das maiores salas do país — Cine Palácio (RJ), Art-Palácio e Rosário (SP), Roxy e Rex (RS) — totalizando mais de 7 mil assentos.

Paralelamente, a revista infantil “O Gury”, do Diário da Noite, uniu forças com a Disney para uma ação promocional inédita. Um grande concurso artístico convidava crianças de todo o Brasil a enviar desenhos inspirados no filme. Os prêmios — 2 mil no total — foram enviados por Walt Disney diretamente dos Estados Unidos, incluindo automóveis infantis, bicicletas, jogos, brinquedos e até coleções de selos da empresa H. Burle Marx. A operação foi supervisionada por Ben Y. Cammack, representante da RKO, que desembarcou no Rio em 22 de agosto de 1940 com os caixotes repletos de presentes.

A chegada do navio S.S. Argentina causou alvoroço no porto carioca, com jornalistas e curiosos ansiosos para testemunhar o desembarque dos brinquedos que fariam parte da promoção. Poucos dias depois, todos os prêmios foram expostos no saguão do Cine Palácio, transformando a estreia em um verdadeiro espetáculo.

 

Sucesso imediato e legado duradouro

O resultado foi estrondoso. As cinco sessões de estreia, nos três estados, registraram lotação máxima — cerca de 36 mil espectadores no primeiro dia. O público se encantou com a dublagem brasileira e a crítica aplaudiu a qualidade técnica do trabalho da Sonofilms. A RKO distribuiu exemplares da revista O Gury nas bilheterias, ampliando ainda mais o impacto do lançamento.

O concurso terminou em janeiro de 1941, e os vencedores foram anunciados na edição de março da revista, com entrega dos prêmios realizada na redação do periódico, no Rio de Janeiro.

O feito foi histórico: pela primeira vez, uma animação americana recebeu tamanho cuidado e adaptação local — a ponto de conquistar o próprio Walt Disney. O menino de madeira, que sonhava em ser real, também ajudou a dar vida a uma era de ouro do cinema e da dublagem no Brasil.

 

A nova voz de um clássico: a redublagem de Pinóquio (1967)

Mais de duas décadas após a estreia original, Pinóquio ganhou uma nova vida nas telas brasileiras com sua segunda dublagem, lançada oficialmente em 25 de dezembro de 1967, em São Paulo. A produção, realizada nos estúdios da Riosom, marcou uma atualização técnica e artística para o clássico da Disney, aproximando-o da nova geração de espectadores.

Desta vez, o boneco de madeira foi interpretado por Carlos Alberto Mello, responsável pelas falas do personagem, enquanto Selma Lopes — que também deu voz à doce Fada Azul — ficou encarregada das canções. A escolha surgiu de forma inusitada: durante as gravações, o diretor Telmo de Avelar percebeu que Mello não tinha experiência em canto e pediu que Selma o substituísse nas partes musicais. Com seu timbre juvenil, ela deu ao personagem um tom inocente e vibrante que se tornaria memorável.

O Grilo Falante foi vivido por Ênio Santos, que também interpretou suas canções, enquanto Luiz Motta emprestou voz e emoção ao bondoso Geppetto. Já o vigarista João Honesto teve uma performance marcante de Magalhães Graça, e o temperamental Stromboli ganhou força na voz de Castro Gonzaga.

As participações femininas trouxeram charme e musicalidade: Cyva, Cybele e Cylene interpretaram as bonecas Alemã, Francesa e Russa, acompanhadas pelo grupo vocal MPB-4, que dublou os Bonecos Russos. Entre os demais personagens, destacam-se Orlando Drummond (como o cocheiro e o animador da Casa Modelo), Milton Rangel Filho (Espoleta) e Ênio Santos, novamente em participação dupla como o animador da Ilha.

Curiosamente, o responsável pelas versões musicais dessa redublagem nunca foi creditado, permanecendo um mistério até hoje.

Antes de estrear no Brasil, a nova versão de Pinóquio chegou primeiro aos cinemas de Portugal, em 22 de dezembro de 1966, um ano antes de desembarcar por aqui. Mesmo sem grandes anúncios, a redublagem logo se tornou a mais conhecida pelo público brasileiro, sendo reprisada em diversas gerações.

VEJA TAMBÉM A DUBLAGEM DA:

Avatar photo
Izaías Correia
Professor, roteirista e web-designer, responsável pelo site InfanTv. Também é pesquisador da dublagem brasileira.

One Reply to “

  1. Pingback: Pinóquio (1941) - Riosom | DB - Dublagem Brasileira

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *